
Crianças que aprendem rápido, demonstram raciocínio avançado e finalizam atividades antes dos colegas costumam ser vistas como privilegiadas no ambiente escolar. No entanto, a realidade de muitas delas é mais complexa do que aparenta. A superdotação — também chamada de altas habilidades — pode coexistir com desafios emocionais, sociais e comportamentais, configurando o que especialistas chamam de dupla excepcionalidade.
Na prática clínica, observo com frequência crianças com alto potencial cognitivo que enfrentam dificuldades para lidar com frustrações, esperar o tempo do outro e se adaptar às dinâmicas sociais da escola. Em alguns casos, a superdotação está associada a condições do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) suporte 1, o que torna o perfil ainda mais desafiador de identificar e compreender.
Aprendem rápido, mas não necessariamente se adaptam rápido
No contexto escolar, é comum que essas crianças terminem tarefas em poucos minutos e, diante do tempo ocioso, demonstrem impaciência ou respondam impulsivamente a professores. Esses comportamentos costumam ser interpretados como indisciplina ou falta de limites, quando, na verdade, revelam dificuldades na autorregulação emocional e social.
O alto desempenho acadêmico pode mascarar sinais importantes, atrasando encaminhamentos e intervenções adequadas. A criança vai bem nas provas, mas sofre no convívio social e na relação com regras que não fazem sentido para seu modo de pensar.
O risco de um olhar limitado
Um dos maiores equívocos é enxergar apenas o talento ou apenas a dificuldade. Quando o foco recai exclusivamente no desempenho, as necessidades emocionais são ignoradas. Quando a atenção se volta somente para os desafios comportamentais, o potencial é desperdiçado. A dupla excepcionalidade exige um olhar integrado e sensível às singularidades de cada criança.
A superdotação não elimina a necessidade de apoio. Pelo contrário, demanda estratégias pedagógicas diferenciadas, enriquecimento curricular e intervenções que favoreçam tanto o desenvolvimento cognitivo quanto o emocional.
O papel da escola e da família
Especialistas defendem que o acompanhamento dessas crianças deve envolver escola, família e profissionais da área clínica. Entre as estratégias mais indicadas estão:
- Propostas pedagógicas desafiadoras e flexíveis
- Planejamento para o tempo após a conclusão das atividades
- Mediação de habilidades sociais
- Trabalho com autorregulação emocional
- Orientação contínua aos educadores e responsáveis
Essas medidas contribuem para reduzir conflitos, promover inclusão e fortalecer o vínculo da criança com o processo de aprendizagem.
Superdotação também exige cuidado
Falar sobre superdotação é ir além do senso comum. Nem toda criança altamente capaz se sente confortável na escola ou compreendida em seus comportamentos. Reconhecer a dupla excepcionalidade é um passo essencial para evitar rótulos equivocados e garantir intervenções mais eficazes.
Como psicopedagoga clínica, defendo que informar é uma forma de cuidado. Quando ampliamos o olhar sobre a superdotação, criamos caminhos mais justos para que essas crianças desenvolvam seu potencial sem abrir mão do bem-estar emocional.
Por Nathanya Moraes – Psicopedagoga Clínica
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