11 de janeiro de 2026

Superdotação e dupla excepcionalidade: por que essas crianças ainda são pouco compreendidas?

Psicopedagoga Clínica
Atualizado há 4 horas

Compartilhe:

Superdotação (Foto: g1)

Crianças que aprendem rápido, demonstram raciocínio avançado e finalizam atividades antes dos colegas costumam ser vistas como privilegiadas no ambiente escolar. No entanto, a realidade de muitas delas é mais complexa do que aparenta. A superdotação — também chamada de altas habilidades — pode coexistir com desafios emocionais, sociais e comportamentais, configurando o que especialistas chamam de dupla excepcionalidade.

Na prática clínica, observo com frequência crianças com alto potencial cognitivo que enfrentam dificuldades para lidar com frustrações, esperar o tempo do outro e se adaptar às dinâmicas sociais da escola. Em alguns casos, a superdotação está associada a condições do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) suporte 1, o que torna o perfil ainda mais desafiador de identificar e compreender.

Aprendem rápido, mas não necessariamente se adaptam rápido

No contexto escolar, é comum que essas crianças terminem tarefas em poucos minutos e, diante do tempo ocioso, demonstrem impaciência ou respondam impulsivamente a professores. Esses comportamentos costumam ser interpretados como indisciplina ou falta de limites, quando, na verdade, revelam dificuldades na autorregulação emocional e social.

O alto desempenho acadêmico pode mascarar sinais importantes, atrasando encaminhamentos e intervenções adequadas. A criança vai bem nas provas, mas sofre no convívio social e na relação com regras que não fazem sentido para seu modo de pensar.

O risco de um olhar limitado

Um dos maiores equívocos é enxergar apenas o talento ou apenas a dificuldade. Quando o foco recai exclusivamente no desempenho, as necessidades emocionais são ignoradas. Quando a atenção se volta somente para os desafios comportamentais, o potencial é desperdiçado. A dupla excepcionalidade exige um olhar integrado e sensível às singularidades de cada criança.

A superdotação não elimina a necessidade de apoio. Pelo contrário, demanda estratégias pedagógicas diferenciadas, enriquecimento curricular e intervenções que favoreçam tanto o desenvolvimento cognitivo quanto o emocional.

O papel da escola e da família

Especialistas defendem que o acompanhamento dessas crianças deve envolver escola, família e profissionais da área clínica. Entre as estratégias mais indicadas estão:

  • Propostas pedagógicas desafiadoras e flexíveis
  • Planejamento para o tempo após a conclusão das atividades
  • Mediação de habilidades sociais
  • Trabalho com autorregulação emocional
  • Orientação contínua aos educadores e responsáveis

Essas medidas contribuem para reduzir conflitos, promover inclusão e fortalecer o vínculo da criança com o processo de aprendizagem.

Superdotação também exige cuidado

Falar sobre superdotação é ir além do senso comum. Nem toda criança altamente capaz se sente confortável na escola ou compreendida em seus comportamentos. Reconhecer a dupla excepcionalidade é um passo essencial para evitar rótulos equivocados e garantir intervenções mais eficazes.

Como psicopedagoga clínica, defendo que informar é uma forma de cuidado. Quando ampliamos o olhar sobre a superdotação, criamos caminhos mais justos para que essas crianças desenvolvam seu potencial sem abrir mão do bem-estar emocional.

Por Nathanya Moraes – Psicopedagoga Clínica


📲 Siga o Portal ClubeNews no Instagram e no Facebook.

Envie sua sugestão de pauta para nosso WhatsApp e entre no nosso Canal.
Confira as últimas notícias: clique aqui! 

Leia também: