28 de março de 2026

Uma história das pessoas comuns: a Revolução de Monsenhor Chaves na Historiografia Piauiense

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Em artigos já publicados nesta coluna, escrevi sobre as trajetórias intelectuais de Raimundo Nonato Monteiro de Santana e Odilon Nunes. Completando a tríade dos pilares da historiografia piauiense, analiso neste texto a obra do historiador e sacerdote Joaquim Raimundo Ferreira Chaves, mais conhecido como Monsenhor Chaves (1913-2007).

Nascido em Campo Maior, Piauí, em 9 de março de 1913, Joaquim Chaves dedicou sua vida ao sacerdócio e a pesquisa histórica. Ordenado padre em 1935, exerceu diversas funções clericais, destacando-se como Pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo e como Vigário-geral da Arquidiocese de Teresina. O sacerdote campomaiorense também notabilizou-se como educador, lecionando em instituições de ensino como o Colégio Diocesano São Francisco de Sales, o Colégio Estadual Zacarias de Góis (Liceu Piauiense) e o Seminário Sagrado Coração de Jesus, onde foi professor, vice-reitor, e, posteriormente, reitor.

Quando não estava celebrando missas ou ministrando aulas, o Pe. Chaves costumava embrenhar-se no Arquivo Público do Piauí, trabalho de pesquisa que rendeu à historiografia do Estado algumas de suas obras mais expressivas, a exemplo de “Teresina – Subsídios para a história do Piauí” (1952); “O índio no solo piauiense” (1952); “Como nasceu Teresina” (1971); “Campo Maior nas lutas de independência” (1971); “O Piauí na Guerra do Paraguai” (1972); “O Piauí nas lutas de independência do Brasil” (1975) e “Apontamentos biográficos e Outros” (1981). Em 1998, os trabalhos do agora Monsenhor Chaves foram reunidos em sua “Obra completa”, livro publicado pela Fundação Cultural da Prefeitura Municipal de Teresina que leva seu nome. Ao longo de sua vida, o autor também ocupou importantes espaços intelectuais no Estado, a exemplo do Centro de Estudos Piauienses, da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

Se tem um aspecto que atravessa a obra de Monsenhor Chaves, ele reside na visibilidade que este autor conferiu às pessoas anônimas, sobretudo, os pobres, mulheres, crianças, indígenas, vaqueiros e roceiros do Piauí. Trata-se de um aspecto central em sua narrativa histórica, desde os primeiros trabalhos sobre Teresina até suas obras da maturidade. No texto “Vaqueiros e roceiros”, que integra o livro “Apontamentos biográficos e outros” (1981), o autor foi bastante incisivo sobre este ponto:

Precisamos reescrever a história do Piauí a partir do povo, a partir do pobre. A que temos é a história da classe dominante, a classe que produz os documentos e organiza os arquivos. Dela são os heróis, os grandes, os libertadores, que de fato a ninguém libertaram, mas mantiveram o povo na sujeição aos seus “modelos” que garantem a perpetuidade de seu status. Chama-se a isto, erroneamente, história. De fato, não é história, é tradição.

Como exposto no trecho acima, Monsenhor Chaves desenvolveu uma crítica contundente à forma como a história do Piauí era escrita. Se a história oficial retratava como heróis e libertadores àqueles que faziam parte da classe dominante é porque a produção do conhecimento histórico, incluindo aí a organização dos arquivos, as instituições de pesquisa e os estabelecimentos de ensino, estava sob seu controle. Neste cenário, caberia ao historiador desenvolver uma abordagem que colocasse em relevo a perspectiva daqueles sujeitos que estavam excluídos dos espaços de poder e da direção do processo produtivo, em suma, aqueles que ocupavam um lugar periférico na sociedade piauiense.

Ao discorrer sobre a concepção historiográfica do autor, no prefácio que escreveu para a 3ª edição de sua “Obra completa”, a historiadora Teresinha Queiroz destacou que seu “novo olhar não se atrela, necessariamente, à influência da discussão teórica no campo historiográfico”. Para a referida historiadora, a mudança de foco analítico operada por Monsenhor Chaves relacionava-se a dois fatores: a empiria, ou seja, o uso intensivo das fontes, sobretudo, da imprensa, que tornou-se um lócus privilegiado para acompanhar a vida cotidiana das classes populares na cidade; e o trabalho pastoral desenvolvido pelo autor, que o colocou em contato direito com os dramas da população pobre, o que teria reverberado na construção de seu relato histórico.

Esta perspectiva historiográfica, pode ser visualizada em obras da fase madura do autor, como “Campo Maior luta pela Independência” (1971) e, principalmente, “O Piauí nas lutas de independência do Brasil” (1975). Nestes trabalhos, Monsenhor Chaves enfatizou a importância da Batalha do Jenipapo, em Campo Maior, como um acontecimento crucial para a emancipação política do Brasil, ressaltando a dramaticidade deste evento e a centralidade dos vaqueiros, roceiros e pessoas comuns no combate contra os portugueses liderados pelo Major Fidié.

O tema das lutas de independência no Piauí, foi retomado no texto “Vaqueiros e roceiros”, onde o historiador campomaiorense pontuou novamente o heroísmo dos bravos piauienses, “pobres, rudes e simples”. Além de reafirmar o caráter popular que atravessou as lutas contra os portuguese na província, o autor reiterou sua reflexão sobre a relação entre escrita da história e lugares de poder:

A epopéia do Jenipapo, durante décadas, ficou sepultada no esquecimento. Houve contra ela a conspiração oficial dos que monopolizaram a história, isto é, a classe dominadora. Compreende-se: ela foi escrita com o sangue e a bravura dos pobres, dos humildes, sem qualquer interferência do governo provincial.

A vasta produção de Monsenhor Chaves também foi resultado de uma sólida parceria com outros nomes de destaque do cenário intelectual do Estado, notadamente, Raimundo Nonato Monteiro de Santana e Odilon Nunes. A este respeito, o historiador relatou em “Vaqueiros e roceiros” que compreender a história a partir do povo, do pobre, era uma tarefa “complexa, difícil, mas não impossível”, citando como exemplo o trabalho de Odilon Nunes que “já deu alguns passos neste sentido quando escreveu a história dos ‘balaios’, no Piauí”.

Se hoje, indígenas, vaqueiros, camponeses e escravizados estão definitivamente inseridos na historiografia piauiense, isto se deve, em grande medida, ao trabalho pioneiro de Monsenhor Chaves.

Por Ramsés Pinheiro – Historiador

BIBLIOGRAFIA

CHAVES, Mons. Vaqueiros e roceiros. In: ______. Obra completa. 3. ed. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2013. 

QUEIROZ, Teresinha. De amor e de livros. In: CHAVES, Mons. Obra completa. 3. ed. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2013. 

QUEIROZ, Teresinha. A História da independência no Piauí: das escritas instituintes aos revisionismos, das versões modernas às celebrações. Humana Res, Teresina, v. 1, n. 5, 2022. p. 59-81, jan./ago. 2022


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