10 de fevereiro de 2026

Suplementos na saúde da próstata: entre a ciência, a expectativa e o marketing

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Suplementos na saúde da próstata (Foto: Divulgação)

A hiperplasia prostática benigna (HPB) é uma das condições urológicas mais comuns no envelhecimento masculino. Embora não seja câncer, seu impacto na qualidade de vida é expressivo: jato urinário fraco, aumento da frequência urinária, noctúria e sensação de esvaziamento incompleto estão entre as queixas mais frequentes.

Tradicionalmente, o tratamento inicial envolve medicamentos como alfa-bloqueadores e inibidores da 5-alfa-redutase. Apesar de eficazes para muitos pacientes, esses fármacos não são isentos de efeitos colaterais, especialmente os relacionados à função sexual, o que limita sua aceitação, sobretudo em homens mais jovens ou sexualmente ativos.

Nos últimos anos, a redução no ritmo de inovação farmacológica para doenças prostáticas abriu espaço para o crescimento acelerado dos nutracêuticos. Produtos à base de extratos vegetais, antioxidantes e compostos “naturais” passaram a ocupar um lugar de destaque tanto nas prescrições quanto no discurso de marketing direcionado ao público masculino. O problema é que, muitas vezes, a promessa anda mais rápido que a evidência científica.

Um amplo review publicado no Archivio Italiano di Urologia e Andrologia analisou criticamente os principais nutracêuticos utilizados na hiperplasia prostática benigna (HPB), prostatites e prevenção do câncer de próstata. A conclusão é clara: talvez haja um espaço limitado para esses compostos na prática clínica, mas apenas quando bem indicados, bem formulados e corretamente posicionados como adjuvantes, nunca como substitutos das terapias consagradas.

A Serenoa repens, por exemplo, permanece como o fitoterápico mais estudado na HPB. Os dados mostram benefício modesto, porém real, na melhora de sintomas urinários leves a moderados, com eficácia superior ao placebo e comparável, em alguns cenários, a medicamentos tradicionais. Ainda assim, resultados inconsistentes entre estudos reforçam um ponto pouco discutido fora do meio médico: nem toda Serenoa é igual, e a padronização do produto influencia diretamente o desfecho clínico.

Pesquisas mais recentes começam a olhar para outra dimensão da doença prostática: o metabolismo energético e a função mitocondrial do tecido prostático.

É nesse cenário que entram a L-carnitina (LC) e a Coenzima Q10 (CoQ10). Um estudo clínico randomizado avaliou homens idosos com HPB em uso de finasterida, comparando a terapia padrão isolada com a associação de finasterida + LC + CoQ10. Após oito semanas, os resultados foram interessantes.

Os pacientes que receberam os suplementos apresentaram redução significativa do volume prostático e melhora relevante da função erétil, quando comparados ao grupo controle. No entanto, quando se analisam os desfechos que realmente motivam a busca por tratamento, como dificuldade para urinar, jato fraco, noctúria e impacto na qualidade de vida, não houve diferença significativa nos escores urinários nem nos níveis de PSA.

Esse contraste ilustra um ponto central que frequentemente se perde na comunicação com o público: alterar a biologia da próstata não significa, necessariamente, aliviar os sintomas do paciente. No caso da L-carnitina e da CoQ10, o potencial benefício parece concentrar-se mais na esfera metabólica e sexual, podendo inclusive ajudar a mitigar efeitos adversos associados ao uso da finasterida, mas sem substituir o tratamento medicamentoso convencional.

A mesma lógica se aplica a outros nutracêuticos amplamente divulgados. Licopeno, selênio, polifenóis, extratos de sementes e compostos antioxidantes apresentam mecanismos biológicos plausíveis e resultados promissores em estudos experimentais. Contudo, quando avaliados sob o rigor clínico, como a melhora sustentada de sintomas, progressão da doença ou prevenção efetiva, os dados ainda são heterogêneos e, muitas vezes, limitados.

No meio de tantas cápsulas e promessas, talvez a principal mensagem seja menos sobre qual suplemento usar e mais sobre como usá-los. Nutracêuticos podem ter um papel complementar, especialmente em pacientes bem selecionados, com sintomas leves, forte componente inflamatório ou preocupação com efeitos colaterais de medicamentos. O que não podem, e não devem, é ocupar o lugar de terapias comprovadas apenas porque soam mais “naturais”.

Na saúde da próstata, o caminho mais seguro continua sendo o mesmo: menos marketing, mais evidência; menos atalhos, mais medicina baseada em dados científicos.

Dr. Giuliano Aita, membro do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia


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