11 de fevereiro de 2026

Bad Bunny, Super Bowl e as Fronteiras Simbólicas da Política

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O cantor usou uma versão azul clara da bandeira de Porto Rico, que remete ao movimento revolucionário da população (Foto: Kevin Sabitus/Getty Images)

A escolha de Bad Bunny para o intervalo do Super Bowl LX não foi apenas uma decisão artística. O evento ocorreu em um momento de acirramento político nos Estados Unidos e no ano das eleições legislativas que têm peso sobre a presidencial em 2028. Em um país onde o futebol americano ocupa lugar central na cultura popular, o intervalo do Super Bowl funciona como espaço de visibilidade nacional, acessado por públicos que raramente acompanham o cotidiano do debate político formal.

A apresentação, conduzida majoritariamente em espanhol e ancorada em referências latino-americanas, deslocou a fronteira simbólica do que costuma ocupar esse palco. O ponto central não foi a qualidade do show, mas o incômodo gerado em parte do público diante da ocupação desse espaço por uma identidade associada à imigração. O conflito não foi explícito. Ele apareceu nas reações, nos apoios, nas críticas e nas tentativas posteriores de enquadrar o episódio como questão política.

Esse tipo de reação ajuda a compreender por que a questão da imigração permanece sensível no debate público estadunidense, um dos temas prioritários registrados nas pesquisas de opinião para a eleição presidencial em 2024. O problema não se limita a políticas de fronteira, deportação ou regularização. Ele envolve percepções de pertencimento, língua legítima e identidade nacional. Quando esses elementos surgem em um evento de entretenimento de massa, eles ativam disposições políticas já existentes.

A literatura sobre comportamento político oferece uma chave interpretativa para essa dinâmica. Ronald Inglehart e Pippa Norris, cientistas políticos estadunidenses, mostram que parte relevante das disputas políticas recentes não decorre de conflitos econômicos diretos, mas de reações a mudanças culturais percebidas como ameaça. O foco deixa de ser o imigrante enquanto trabalhador ou destinatário de políticas públicas e passa a ser o imigrante enquanto marcador simbólico de transformação social.

O show de Bad Bunny opera nesse registro. Para alguns segmentos do público, a apresentação produz identificação. Para outros, gera sensação de deslocamento e perda de centralidade cultural. Essa clivagem não é nova, mas se torna mais visível quando emerge em um espaço historicamente associado a uma ideia homogênea de americanidade.

O ano das eleições legislativas amplia o peso desse tipo de episódio. Disputas para o Congresso costumam ser permeáveis a temas morais e indenitários assim como os pleitos presidenciais. Eventos culturais de grande audiência não definem votos de forma direta, mas contribuem para reforçar alinhamentos e organizar o ambiente político em que as campanhas se desenvolvem.

Lido desse modo, o intervalo do Super Bowl não foi um ato político deliberado, mas tampouco foi neutro. Ele expôs tensões culturais que atravessam o eleitorado dos Estados Unidos e que continuam estruturando o debate sobre imigração. O episódio diz menos sobre o artista no palco e mais sobre o país que o experimentou.


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