18 de fevereiro de 2026

Violência vicária: pesquisadora da UFPI explica como agressões contra filhos afetam e controlam mulheres

Socióloga detalha como esse tipo de violência se manifesta e por que o país ainda enfrenta dificuldade para identificar e combater o problema

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Violência vicária é um desdobramento da violência de gênero. (Foto: reprodução)

A tragédia que abalou o município de Itumbiara (GO), onde o secretário de Governo Thales Machado matou os dois filhos e depois tirou a própria vida, reacendeu no país o debate sobre um tipo de violência ainda pouco conhecido, mas profundamente devastador: a violência vicária, quando o agressor atinge filhos ou pessoas próximas para punir emocionalmente a mulher.

Para compreender o fenômeno, o Portal ClubeNews conversou com a socióloga Marcela Castro, professora e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (NUPEC-UFPI). Segundo ela, o crime tem raízes diretas nas dinâmicas de controle masculino e na violência de gênero.

Miguel e Benício morreram após serem baleados pelo pai, Thales Machado. (Foto: reprodução / g1 Goiás)

O que é violência vicária?

De acordo com a especialista, trata-se de um desdobramento da violência doméstica.

“É um desdobramento da violência de gênero, onde o agressor estabelece violência contra terceiros — geralmente filhos, parentes ou até animais de estimação — como forma de controle e punição da mulher”, destaca Marcela Castro.

Ela explica que o agressor utiliza relações de poder para culpar a mulher pelo ato que ele próprio pratica. A socióloga afirma que esse tipo de violência destrói todos os pilares emocionais da mulher sobrevivente.

“Traz efeitos físicos, psicológicos, moral, o sentimento carregado pela culpa e o julgamento social. Na condição de vítima, a mulher torna-se a culpada. O agressor passa toda a responsabilidade do seu ato à mulher.”

(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Esse mecanismo, segundo a pesquisadora, reforça a culpa e o sofrimento prolongado que muitas carregam por toda a vida. Para a especialista, o Brasil ainda tem lacunas profundas na identificação e enfrentamento da violência vicária.

“Ainda não estamos preparados. Há um projeto em tramitação no Congresso para incluir a violência vicária na Lei Maria da Penha, mas precisamos de mais debate.”

Marcela destaca que faltam diretrizes claras para a rede de proteção às mulheres e às crianças. Ela reforça que o tema exige atenção urgente do poder público e da sociedade.

Por que os filhos são usados como instrumento de vingança?

Marcela ressalta que as crianças também são vítimas diretas dessas violências, embora muitas vezes invisibilizadas.

“Os filhos são o elo de amor e proteção da mulher. O agressor sabe disso e atinge justamente esse ponto, rompendo essa ligação para feri-la profundamente, a responsabilizando pelo sofrimento e morte dos seus filhos.”

O agressor estabelece a terceiros diferentes formas de violências, geralmente aos filhos. (Foto: reprodução)

O que precisa mudar?

A pesquisadora explica que violência vicária se apoia na cultura de dominação masculina. “O agressor usa os filhos para ferir e controlar a mulher. Ela passa anos carregando a culpa e o sofrimento por algo que não fez.”

Segundo ela, o crime se alimenta da lógica de posse e da estrutura patriarcal que ainda orienta muitas relações no Brasil. A socióloga aponta que a transformação é longa, mas possível.

“Educação e vontade política são essenciais. Precisamos fortalecer a rede de apoio, capacitar profissionais da saúde, segurança e justiça, e promover campanhas de conscientização.”

Ela afirma que a sociedade inteira precisa se mobilizar para evitar que tragédias como a de Goiás se repitam.

ONG Maria da Penha reforça alerta

O Instituto Maria da Penha destaca, em entrevista à Agência Brasil, que a violência vicária não é exceção no país e confirma que há diretrizes nacionais para o tema, reconhecido como forma de violência de gênero.

A entidade lista algumas das formas mais comuns:

  • ameaças envolvendo os filhos
  • manipulação emocional
  • falsas acusações
  • afastamento forçado da convivência
  • sequestro ou retenção ilegal de crianças


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