
Estamos diante de uma geração que nunca conheceu o mundo sem tela. Nossos filhos têm o celular à mão, estudam com o computador aberto e socializam por meio de aplicativos. A tecnologia trouxe avanços extraordinários, mas também um risco silencioso e cumulativo para os cérebros em formação.
Como médico e como pai de dois adolescentes, decidi recentemente limitar o acesso dos meus filhos às redes sociais a apenas 15 minutos por dia. Não foi uma decisão por impulso… Foi uma decisão baseada em evidências científicas.
O cérebro adolescente não é um “mini cérebro adulto”
A adolescência é um período de intenso remodelamento cerebral. A região responsável por planejamento, autocontrole e tomada de decisões, o chamado córtex pré-frontal, ainda está em maturação. Ao mesmo tempo, o sistema de recompensa, fortemente mediado por dopamina, está altamente sensível.
Essa combinação cria uma vulnerabilidade específica: busca intensa por estímulo e baixa capacidade de freio inibitório.
As redes sociais são desenhadas exatamente para explorar esse circuito. Rolagem infinita, notificações imprevisíveis, curtidas, vídeos curtos de alta estimulação. Tudo isso ativa repetidamente o sistema dopaminérgico.
Não é coincidência, é intenção dos programadores das redes. É design.
Estudos conduzidos por universidades como Harvard, Stanford e o Imperial College (Londres), vêm associando uso excessivo de redes sociais a:
- Maior risco de ansiedade e depressão
- Redução da capacidade de concentração sustentada
- Distúrbios do sono
- Piora da autoestima (especialmente em meninas adolescentes)
- Maior impulsividade
Em 2023, importante colégio médico dos Estados Unidos publicou alerta formal sobre o impacto das redes sociais na saúde mental de jovens. Não estamos mais falando de opinião. Estamos falando de saúde pública! Estamos falando de proteger nossos filhos.
Dentro deste cenário, o termo brain rot (“apodrecimento cerebral”) surgiu nas redes sociais como uma expressão informal. Mas passou a ser usado para descrever um fenômeno real: a deterioração da capacidade de atenção profunda, leitura longa e raciocínio contínuo após exposição prolongada a conteúdos curtos, fragmentados e altamente estimulantes.
Não é que o cérebro literalmente apodreça.
O que acontece é uma adaptação neuroplástica. O cérebro passa a se acostumar com estímulos rápidos, recompensas imediatas e alternância constante de foco. Como consequência, tarefas que exigem concentração prolongada — como estudar, ler um livro ou resolver um problema complexo — tornam-se desconfortáveis, às vezes impossíveis.
É uma mudança funcional.
E mudanças funcionais repetidas na adolescência moldam circuitos que podem facilmente persistir na vida adulta.
Além disso, a luz azul das telas interfere na produção de melatonina e, consequentemente, no sono. Quando adicionamos horas de tela à noite, criamos um cenário perfeito para privação crônica de sono.
E privação de sono, em adolescentes, significa:
- Maior instabilidade emocional
- Pior desempenho acadêmico
- Aumento de risco para sintomas depressivos
- Maior impulsividade
É um efeito em cascata.
Por outro lado, não deixa de ser verdade que a socialização hoje passa pelas plataformas digitais… Isolamento completo não é solução. Demonização também não.
O que não podemos ignorar é a diferença clara entre uso consciente e uso ilimitado.
Os estudos mostram que o problema não é simplesmente usar, mas o excesso e a ausência de limites claros. Muitas vezes uso acima de 1 hora diárias já se associa a maior risco de sintomas depressivos em diversos estudos populacionais.
E por que eu limitei a 15 minutos por dia?
Como pai, percebi algo simples, que todos nós, pais de adolescentes, sabemos… sem limite externo, o limite interno é quase inexistente nessa idade. Não por falta de caráter, mau comportamento. Mas por neurobiologia…
Quinze minutos não excluem. Não isolam. Não tornam meus filhos “alienígenas sociais”. Apenas impedem a imersão contínua no ciclo de recompensa rápida e os protegem com ampla margem.
O que nós, em casa, ganhamos com isso?
- Mais tempo para leitura
- Mais conversas presenciais
- Mais atividade física
- Mais tédio saudável (que estimula criatividade)
E talvez o mais importante: preservação da capacidade de foco!
Não se trata de proibir de forma autoritária. Trata-se de assumir o papel de regulador, de pai… enquanto o cérebro de meus filhos ainda está em formação. E lógico que, para isso, eu mesmo reduzi meu próprio tempo de tela.
E reforço… Não se trata de uma discussão sobre moral, sobre certo e errado. É sobre saúde cerebral!
Há algumas décadas, discutíamos o cigarro dentro de casa. Hoje discutimos o celular na mão de uma criança de 10 anos.
A diferença é que o dano do tabaco era pulmonar. O dano atual é atencional, emocional e comportamental.
Silencioso. Progressivo. E muitas vezes naturalizado.
Não se trata de ser “contra a tecnologia”. Trata-se de proteger cérebros em desenvolvimento.
Como médico, eu não poderia ignorar os dados.
Como pai, eu não poderia fugir da minha responsabilidade.
Marcelo Martins
Médico clínico, intensivista e cardiologista
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