
Os historiadores que pesquisam sobre o surgimento da imprensa no Brasil costumam estabelecer como marco deste processo o Decreto de 13 de maio de 1808, por meio do qual o Príncipe-Regente Dom João instituiu a imprensa Régia no Rio de Janeiro. Dos prelos vindos de Lisboa, foi impresso o jornal Gazeta do Rio de Janeiro, que circulou pela primeira vez em 10 de setembro daquele ano, exercendo a função de periódico oficioso do governo português.
A emergência da Gazeta não significou um cenário de liberdade de imprensa na América portuguesa, ao contrário, publicações críticas às políticas do governo lusitano eram submetidas a permanente censura e vigilância. Visando evitar esta perseguição, desde 1º de junho de 1808 o jornalista brasileiro Hipólito José da Costa publicava o jornal Correio Braziliense na cidade de Londres, na Inglaterra.
A despeito da rápida proliferação de jornais na corte, a emergência da imprensa piauiense demoraria alguns anos para ocorrer. Ao discorrer sobre o assunto, o escritor Celso Pinheiro Filho apoiou-se num estudo do pesquisador Joel Oliveira para afirmar que o primeiro jornal da província foi O Piauiense, periódico que teria circulado pela primeira vez em 15 de agosto de 1834. Editado na Tipografia de Silveira & Silva, depois Tipografia Provincial, na capital Oeiras, o referido jornal publicava basicamente os atos oficiais do governo provincial e algumas matérias dos jornais cariocas.
O caráter oficioso d’O Piauiense revela que este periódico foi publicado sob os auspícios do presidente da província do Piauí, o poderoso Manoel de Sousa Martins (1767-1856), então Barão da Parnaíba. Esta ligação também é evidenciada pela amizade íntima que o barão mantinha com o proprietário da tipografia em que O Piauiense era rodado, o Pe. Antonio Fernandes da Silveira, político sergipano que chegou a ocupar o cargo de Secretário de Governo da Província, em 1824.
Ao comentar sobre Manoel de Sousa Martins, o historiador Pedro Vilarinho ponderou que, ao receber as mercês do Imperador D. Pedro I, o Barão da Parnaíba “passou a comandar com mão de ferro a política na província do Piauí, não admitindo mesmo que outros grupos políticos participassem de forma significativa do jogo do poder”. Desta forma, o caráter que Manoel de Sousa Martins imprimiu ao seu governo inibiu o debate político, prejudicando o desenvolvimento de uma imprensa crítica à sua administração.
O segundo jornal que surgiu na província, em 16 de maio de 1835, foi o Correio da Assembleia Legislativa do Piauí, um órgão de divulgação dos trabalhos desta câmara instalada poucos dias antes. Ao analisar este periódico, Vilarinho pontuou que ele se restringiu a noticiar as ações desenvolvidas pelos deputados daquela assembleia, mantendo uma caráter institucional que não oferecia qualquer ameaça ao barão.
Outro jornal da província que surgiu sob as graças Manuel de Sousa Martins foi O Telégrafo. De acordo com o historiador Odilon Nunes, citado por Celso Pinheiro Filho, uma Portaria de 22 de novembro de 1839 autorizou Francisco José Fialho a se encarregar da redação de um jornal em que fosse transmitido ao público as ocorrências da Balaiada (1838-1841) e “os atos do governo a ela tendentes”. O jornal deveria ser impresso na Tipografia Provincial, em Oeiras.
De acordo com Vilarinho, as notícias publicadas n’O Telégrafo tinham como objetivo “elevar a autoestima das tropas e da população” durante a guerra contra os balaios. Daí as matérias sobre os atos de bravura dos legalistas, a exemplo daquele de Tomé Mendes Vieira que, a frente de 40 homens, teria enfrentado e derrotado cerca de 200 balaios, obrigando-os a atravessar o Parnaíba a nada para retornar ao Maranhão.
Em 1841, já sob o governo de D. Pedro II, Manoel de Sousa Martins seria agraciado com outro título, o de Visconde da Parnaíba, uma retribuição por seus serviços na repressão aos balaios. A despeito do reconhecimento imperial, sua era de glória aproximava-se do fim. Dois anos depois, o visconde, que já contava com mais de 70 anos, foi apeado do poder. Inaugurava-se um novo período, onde a imprensa passaria a desempenhar um papel central no debate político na província e depois no Estado do Piauí.
Celso Pinheiro Filho pontou que um dos marcos deste novo período foi o surgimento do jornal O Liberal Piauiense em 1845, um periódico editado pelo jornalista Lívio Lopes Castelo Branco e Silva, personagem estigmatizado por seus desafetos durante a Guerra dos Balaios onde se posicionar ao lado destes. Na segunda metade do século XIX, a província do Piauí assistiu à criação de inúmeros outros periódicos, quase sempre representativos dos interesses de grupos políticos que disputavam o controle da província.
Ramsés Pinheiro
Historiador
FONTES:
PINHEIRO FILHO, Celso. História da imprensa no Piauí. 3 ed. Teresina: Editora Zodíaco, 1997.
CASTELO BRANCO, Pedro Vilarinho. Imprensa e política no Piauí, no Período Regencial e no início do Segundo Reinado. In: ______; QUEIROZ, Teresinha (org). Páginas impressas: história, imprensa e política no Brasil. São Paulo: Mentes Abertas, 2020.
Envie sua sugestão de pauta para nosso WhatsApp e entre no nosso Canal.
Confira as últimas notícias: clique aqui!