13 de março de 2026

203 anos da Batalha do Jenipapo: historiografia, memória e identidade

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Batalha do Jenipapo (Foto: Governo do Piauí)

No dia 13 de março de 1823, nas margens do riacho Jenipapo, localizado nos arredores da Vila de Campo Maior, roceiros, vaqueiros e pessoas anônimas lutaram contra soldados profissionais do Exército português comandados por um experimentado oficial lusitano, o Major João José da Cunha Fidié. Aquele conflito, conhecido pela posteridade como Batalha do Jenipapo, não representou apenas a consolidação da independência no Piauí, também viabilizou a adesão de todo o Norte ao recém-criado Estado brasileiro, preservando a unidade territorial do período colonial.

A narrativa acima, representa uma das múltiplas formas como os historiadores interpretaram o processo de independência no Piauí, tema constituinte da historiografia piauiense. Ao discorrer sobre as diferentes visões sobre o assunto, a historiadora Teresinha Queiroz chama nossa atenção para uma escrita constituinte que, de José Martins Pereira de Alencastre à Abdias Neves, fixou nomes, datas e locais sobre a história da emancipação piauiense; uma historiografia revisionista, impulsionada nos anos 1920 por Clodoaldo Freitas e Hermínio Conde, que questionou a centralidade de personagens como o Visconde da Parnaíba e o Almirante Cochrane nas lutas de independência; e uma historiografia moderna constituída por nomes como Odilon Nunes, Wilson Brandão e Monsenhor Chaves.

Representante desta última vertente, Monsenhor Chaves, de acordo com Teresinha Queiroz, foi o responsável por realçar o Norte da província, especialmente Campo Maior, no processo de independência no Piauí. Não só isso, também centrou sua análise nos vaqueiros, roceiros e pessoas comuns que lutaram na Batalha do Jenipapo, consolidando uma perspectiva popular sobre a inserção do Piauí nas lutas de independência. Publicado em 1971, o livro “Campo Maior luta pela independência: a batalha do Jenipapo” é um marco inaugural da interpretação de Monsenhor Chaves sobre o processo de emancipação na então província do Piauí.

Nos anos 1970, a Batalha do Jenipapo foi capturada pelo Estado com o propósito de fortalecer uma identidade local, afinal, se a sorte da independência e da unidade nacional foi decidida nas margens do Jenipapo, e não do Ipiranga, esse fato deveria ser um motivo de orgulho para os piauienses. Neste sentido, a historiador Iara Guerra pontuou que o governador Alberto Silva resolveu comemorar os 150 anos da Batalha do Jenipapo com um concurso de âmbito nacional, instituído em 1972, cujo tema era a participação do Piauí nas lutas de independência do país. A obra vencedora foi o “O Piauí nas lutas de independência do Brasil”, de Monsenhor Chaves.

A construção de um sentimento de uma “autoestima piauiense” ligado à Batalha do Jenipapo relacionou-se com outro aspecto central do primeiro governo de Alberto Silva, as grandes obras arquitetônicas. Desta forma, confluindo com um projeto reivindicado por intelectuais campomaiorenses, tal como acentuado pelos historiadores Antonio Jefferson e Cláudia Fontineles, o governador iniciou a construção de um monumento na cidade de Campo Maior em homenagem aos “Heróis do Jenipapo”. Previsto para ficar pronto a tempo das comemorações do sesquicentenário da batalha, em 13 de março de 1973, a inauguração do Monumento aos heróis do Jenipapo foi protelada diversas vezes devido o atraso das obras, ocorrendo apenas em 6 de novembro daquele ano.

 A despeito de exortar a coragem e o heroísmo dos piauienses que morreram em defesa da independência e da unidade nacional, o imponente Monumento aos heróis do Jenipapo não rememoraria apenas aquela batalha ocorrida em 1823, mas também, como salientado pela historiadora Maristela Rodrigues, “o governo que se empenhou em construí-lo”. Nesta perspectiva, o político parnaibano foi um agente ativo na construção de sua própria memória. Não por acaso, quando a Batalha do Jenipapo completou 182 anos, em 2005, o então senador Alberto Silva afirmou que seu governo havia impulsionado os estudos sobre àquele episódio, resultando daí a construção de um “monumento aos heróis piauienses no município de Campo Maior”.

 Naquele mesmo ano, a Batalha do Jenipapo voltou a figurar no debate político piauiense graças a um projeto de lei do deputado estadual Homero Castelo Branco que propôs a introdução do 13 de março de 1823 na bandeira do Piauí. Aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado, o projeto transformou-se em Lei nº 5.507, de 17 de novembro de 2005. Naquela ocasião, o referido deputado evocou argumentos da historiografia moderna sobre a batalha para afirmá-la como um marco decisivo para consolidação da independência e da unidade territorial brasileira.

O processo de independência no Piauí é um bom exemplo para ilustrar como um mesmo tema pode ser objeto de múltiplas interpretações. Desta forma, nada melhor do que conhecer e discutir a historiografia sobre este processo histórico. Nesta perspectiva, a “Coleção Independência”, formada por cinco livros editados pela dupla Raimundo Nonato Monteiro de Santana e Cineas Santos, e publicada pela FUNDAPI entre 2006 e 2007, representa uma das fontes mais relevantes para os interessados pelo tema. Para aqueles que preferirem conhecer as tramas da independência no Piauí através da sétima arte, a HQ “Foices e Facões: A Batalha do Jenipapo”, publicada por Bernardo Aurélio e Caio Oliveira em 2009, é a melhor indicação possível.

Encerrando as recomendações sobre a independência no Piauí, não poderia deixar de registrar o livro “O outro lado da independência do Brasil: aspirações e manifestações, natureza e formas de luta da população do Piauí – 1789-1850”, da historiadora Claudete Maria Miranda Dias, obra imprescindível na medida em que insere as lutas travadas no território piauiense num longo processo de contestação política e social que vai do final do século XVIII até meados do século XIX.

FONTINELES, Claudia Cristina da Silva; SOUSA, Antonio Jefferson. Fazer recordar os heróis do Jenipapo: história, memória e identidade em um monumento (1971-1973). BOLETIM HISTORIAR, v. 09, p. 83-96, 2022.

GUERRA, Iara. Historiografia piauiense: relações entre escrita histórica e instituições político-culturais. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2015.

QUEIROZ, Teresinha. A História da independência no Piauí: das escritas instituintes aos revisionismos, das versões modernas às celebrações. Humana Res, Teresina, v. 1, n. 5, 2022. p. 59-81, jan./ago. 2022

RODRIGUES, Maristella Muniz. Entre comemorações cívicas e lutas pela construção da memória: a política cultural do governo Alberto Silva. (Dissertação de Mestrado) Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2018.


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