8 de junho de 2026

Empreendedorismo sustentável transforma vidas, gera renda e fortalece a economia

O crescimento do empreendedorismo sustentável acompanha o fortalecimento dos pequenos negócios no Brasil.

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Foto: Montagem/Reprodução Instagram/Arquivo Pessoal

Reportagem por Gilson Rocha (colaborador)

O empreendedorismo sustentável tem se consolidado como uma das principais tendências do mercado brasileiro. Mais do que uma estratégia de negócios, ele representa uma forma de aliar geração de renda, responsabilidade ambiental e desenvolvimento social. No Piauí, histórias de empreendedores que apostam em soluções sustentáveis mostram como é possível transformar desafios em oportunidades e construir negócios inovadores com impacto positivo para a sociedade.

Foi durante a pandemia de Covid-19 que a artesã Henriquêta Castelo Branco encontrou uma nova direção para sua produção. Depois de utilizar todo o material que possuía em casa, passou a explorar elementos disponíveis no próprio jardim, como sementes, folhas, pigmentos naturais e cascas de árvores. A iniciativa deu origem a uma nova fase profissional marcada pelo reaproveitamento de materiais e pela valorização da natureza.

Henriquêta começou a empreender durante a pandemia de Covid-19 – Crédito: Arquivo Pessoa

Sobre a escolha por esse segmento, Henriquêta resume sua motivação. “O artesanal desperta nossa humanidade, nos conecta com nossas raízes e memória, nos ensina sobre resistência, criatividade, sustentabilidade. Amor o que faço”.

A artesã explica que seu trabalho sempre esteve presente em sua trajetória, seja como fonte complementar de renda ou como terapia. Atualmente, utiliza sementes, cipós, madeira de reaproveitamento e outros materiais naturais para criar peças com identidade própria e estilo contemporâneo.

Um dos diferenciais do negócio está na cadeia produtiva sustentável. As sementes são coletadas por moradores da zona rural, que recebem remuneração pelo trabalho e orientação para replantar parte do material coletado. Já a madeira é adquirida em marcenarias, canteiros de obras e fábricas de móveis. “Vejo arte na madeira de reaproveitamento”, afirma.

Ao explicar seu processo criativo, Henriquêta destaca que a inspiração surge justamente a partir do descarte.

“Normalmente, quando vejo o descarte de madeira de uma determinada atividade, ali logo vem a ideia para reutilizar aquele material. Procuro negociar com o proprietário e mãos à obra. Meu processo criativo é livre. Faço croqui, separo paleta de cores, mas a matéria-prima tem ‘vida própria’ e, de repente, ela toma forma completamente diferente do que idealizei no início. Acho isso incrível e deixo fluir”.

Peças originais confeccionadas com casas de árvore e sementes – Crédito: Arquivo Pessoal

Para divulgar suas peças, a artesã utiliza redes sociais, participa de feiras e estabelece parcerias. Ela acredita que o empreendedorismo artesanal fortalece a produção local, gera renda e valoriza o trabalho manual. “Hoje, na sua vida, o empreendedorismo representa meu trabalho, minha terapia, meu prazer de criar, enfim, tudo”, finaliza.

Empreendedorismo sustentável e reciclagem ganham força no Brasil

O crescimento de negócios sustentáveis acompanha uma mudança de comportamento de empreendedores e consumidores. Segundo a analista do Sebrae no Piauí, Marília Floriano, a sustentabilidade deixou de ser algo pontual e passou a integrar uma transformação estrutural da economia.

Marília Floriano analisa crescimento do empreendedorismo sustentável no cenário brasileiro – Crédito: Divulgação Sebrae

“O empreendedorismo sustentável deixou de ser alguma coisa pontual e passou a fazer parte de uma mudança estrutural. Inclusive, dados recentes e pesquisas que o Sebrae realiza, mostra que o Brasil tem um dos maiores níveis de engajamento e negócios com impacto social”.

Marília destaca que mais de 80% dos empreendedores brasileiros já adotam alguma prática sustentável. No caso da reciclagem, ela ressalta a forte conexão com a economia circular, que transforma resíduos em novas oportunidades de negócio.

Apesar do crescimento do setor, a especialista observa que muitos empresários ainda desconhecem conceitos importantes, como ESG. Por isso, o principal desafio atual é ampliar a orientação, a capacitação e a estruturação dos negócios sustentáveis.

Ela explica que a cadeia da reciclagem gera oportunidades em diversas etapas, como coleta, triagem, transformação, processamento e comercialização. Além disso, muitos desses empreendimentos surgem em regiões onde as oportunidades de emprego são limitadas.

“Porque na prática isso acontece com catadores, cooperativas, comunidades mais periféricas, que passam a atuar de forma organizada na cadeia de reciclagem. É um modelo que combina geração de renda com inclusão produtiva. E muitas vezes ela é o principal sustento dessas famílias”.

Para Marília, o sucesso desses negócios depende de planejamento, qualificação e acesso a conhecimento. Ela ressalta ainda que o Sebrae atua oferecendo capacitação, orientação técnica, ferramentas de gestão e apoio na estruturação de empreendimentos sustentáveis.

Tijolo ecológico aposta na inovação para reduzir impactos ambientais

Na construção civil, a sustentabilidade também vem abrindo espaço para novas tecnologias. Um exemplo é a empresa Yapo, que atua na produção de tijolos ecológicos e já comercializa seus produtos para diversos municípios piauienses e estados vizinhos.

O engenheiro de produção Leonardo Pereira, sócio e responsável técnico da empresa, explica que o produto apresenta vantagens ambientais e estruturais em relação aos tijolos convencionais.

Leonardo Pereira decidiu investir em tijolos ecológicos – Crédito: Reprodução Instagram

“Na verdade, o tijolo ecológico é fabricado com solo e cimento, mas a gente tem um projeto futuro para usarmos material descartados, como garrafa pet para insumo do tijolo apelidado de tijolo ecológico, pois no processo de cura não se usa árvores como combustão para queima e não emite o CO2, que é o maior poluente da atmosfera”.

Segundo Leonardo, o processo de fabricação elimina a necessidade de queima em fornos e reduz significativamente as emissões de gases poluentes. Além disso, o sistema utilizado permite alcançar resistência até seis vezes superior à do tijolo tradicional.

Processo de fabricação dos tijolos ecológicos vem ganhando destaque no Piauí – Crédito: Reprodução Instagram

Para o empresário, a sustentabilidade deixou de ser uma tendência e se tornou uma necessidade.

“Escolhemos essa vertente para, de alguma forma, contribuir no ramo da construção civil de forma correta e mostrar que dá para construir belo, moderno e sustentável”.

Ele reconhece que empreender exige dedicação constante diante de desafios como alta carga tributária, escassez de mão de obra qualificada e necessidade de investimentos. Ainda assim, acredita que o planejamento e o estudo de mercado são fundamentais para transformar ideias em negócios de sucesso.

Moda sustentável alia consciência ambiental e empoderamento feminino

A sustentabilidade também tem impulsionado mudanças no setor da moda. No Piauí, a estilista Ana Maria se tornou referência ao criar a Slow Live, considerada a primeira marca de moda sustentável do estado.

A empreendedora conta que a ideia surgiu após um processo de autoconhecimento e aprofundamento nos estudos sobre moda sustentável. A partir daí, decidiu construir uma marca alinhada aos seus valores e ao consumo consciente.

Ana Maria revela como decidiu entrar no mundo do empreendedorismo – Crédito: Reprodução Instagram

“Eu sempre entendi que a moda deve vestir primeiro a consciência e depois o corpo. Não existe algo melhor do que oferecer um produto que agregue valor além do preço, trazendo inovação e estando alinhado aos princípios da sustentabilidade, ao cuidado com o meio ambiente, à consciência humana, à necessidade de mudança e à valorização da autoralidade”.

A marca utiliza algodão orgânico, tecidos produzidos a partir de casca de madeira, fibras derivadas da casca de abacaxi e materiais desfibrados. Além disso, prioriza a contratação de mulheres em diferentes etapas da cadeia produtiva.

Peças são fabricadas com algodão orgânico e outros tecidos sustentáveis – Crédito: Reprodução Instagram

Ana Maria também mantém parcerias com artesãs locais e associações femininas, fortalecendo a geração de renda e o empoderamento feminino. Segundo ela, o consumidor sustentável exerce papel importante na transformação social.

“Quem compra uma roupa da marca não está sendo apenas consumidor. Está se tornando agente de transformação social”.

Para a estilista, um dos maiores desafios é conscientizar o público sobre a importância de consumir produtos que carregam propósito, responsabilidade ambiental e valorização do trabalho humano.

Pequenos negócios impulsionam emprego, renda e desenvolvimento

O crescimento do empreendedorismo sustentável acompanha o fortalecimento dos pequenos negócios no Brasil. Segundo o advogado empresarial Antônio Cláudio da Silva, o país vive um dos momentos mais expressivos da atividade empreendedora.

Antônio Cláudio diz que perfil do empreendedor passou por mudanças nos últimos anos – Crédito: Reprodução Instagram

De acordo com ele, a taxa de empreendedorismo alcançou 33,4% da população adulta, envolvendo cerca de 47 milhões de brasileiros na gestão dos próprios negócios.

Para o especialista, os pequenos empreendimentos desempenham papel fundamental na economia nacional ao gerar empregos, movimentar a renda local e promover inclusão produtiva.

Antônio Cláudio destaca que o empreendedorismo por oportunidade voltou a ganhar força no país e que muitos brasileiros estão abrindo empresas para atender demandas específicas do mercado, e não apenas por necessidade financeira.

O advogado também chama atenção para a importância da sustentabilidade como diferencial competitivo. Segundo ele, práticas como eficiência energética, economia circular, reaproveitamento de materiais e digitalização de processos podem reduzir custos e aumentar a lucratividade das empresas.

“Sustentabilidade precisa caminhar sempre junto com a viabilidade econômica. Ela precisa ser eficiente e precisa gerar resultado para quem empreende e precisa ser proveitosa para quem vai adquirir”.

Além disso, Antônio Cláudio ressalta que instituições como o Sebrae desempenham papel estratégico ao oferecer capacitação, orientação e acesso a crédito, ajudando empreendedores a transformarem boas ideias em negócios sólidos e competitivos.

Sustentabilidade e empreendedorismo constroem um futuro de oportunidades

As trajetórias de Henriquêta Castelo Branco, Leonardo Pereira, Ana Maria e Antônio Cláudio da Silva mostram que sustentabilidade e empreendedorismo podem caminhar lado a lado. Seja por meio do artesanato, da reciclagem, da construção civil, da moda ou dos pequenos negócios, todos compartilham o mesmo propósito: gerar desenvolvimento econômico sem abrir mão da responsabilidade social e ambiental.

Henriquêta. Leonardo e Ana Maria representaram sangue novo no empreendedorismo de pequenos negócios

Em um cenário de constantes transformações, essas iniciativas demonstram que inovação, consciência ambiental e geração de renda podem coexistir, abrindo caminhos para um futuro mais inclusivo, sustentável e próspero para as próximas gerações.


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