15 de junho de 2026

O medo de ir ao banheiro: como o desmame das fraldas e a rotina escolar podem travar o intestino das crianças

A constipação na infância é, na grande maioria dos casos, chamada de "funcional".

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Foto: Magnific

Quem tem criança em casa sabe que a rotina é feita de marcos. A primeira palavra, os primeiros passos, a retirada das fraldas e a ida para a escola. No entanto, dois desses momentos — o desfralde e o início da vida escolar — guardam uma relação direta com um problema que gera muita angústia nas famílias: o intestino preso.

A constipação na infância é, na grande maioria dos casos, chamada de “funcional”. Isso significa que não há uma doença no órgão, mas sim um comportamento que bloqueia o seu funcionamento adequado. E o gatilho para esse comportamento, quase sempre, é emocional e social.

O Ciclo do Medo e a Dor

Diferente dos adultos, que sentem o desconforto do intestino preso e buscam uma solução, a lógica da criança é baseada na fuga da dor. O processo geralmente começa de forma simples: por causa de um dia quente com menos ingestão de água, ou um excesso de alimentos ultraprocessados, a criança faz um cocô um pouco mais endurecido que machuca ou incomoda ao sair.

Pronto. Para o pequeno, a associação é imediata: fazer cocô dói. Para evitar a dor, ela passa a segurar.

O grande problema é que o intestino grosso continua absorvendo a água daquela massa que ficou retida. Quanto mais tempo a criança segura, mais as fezes ressecam e aumentam de tamanho. Quando ela finalmente não aguenta mais e evacua, dói ainda mais. Esse é o “ciclo do medo”, uma armadilha comportamental difícil de quebrar sem paciência e estratégia.

Os Grandes Vilões: Desfralde Precoce e Banheiro da Escola

  1. O Desfralde Forçado: Exigir que a criança deixe as fraldas antes de estar madura anatomicamente e psicologicamente gera ansiedade. Sentar-se em um vaso sanitário grande, onde os pés ficam balançando no ar, dá a sensação de queda e insegurança, fazendo com que ela prefira prender a evacuar.
  2. A Rotina Escolar: O ambiente escolar é cheio de estímulos. A criança não quer parar de brincar para ir ao banheiro. Além disso, existe a vergonha ou o medo de usar um banheiro que não seja o de casa, a falta de privacidade ou o receio de pedir ajuda ao professor


Como Ajudar os Pequenos em Casa?

A Regra do Banquinho: Nunca deixe a criança evacuar com os pés suspensos. Use um banquinho ou adaptador de pés para que os joelhos fiquem levemente acima da linha do quadril (formando um ângulo de 35°). Essa posição relaxa a musculatura do puborretal e facilita a saída do cocô sem esforço.

Rotina do Troninho: O corpo humano tem um reflexo natural de evacuação após as refeições (reflexo gastrocólico). Aproveite isso. Crie o hábito de levar a criança para sentar no vaso de 15 a 20 minutos após o almoço ou o jantar. Não a deixe lá por horas; apenas 5 a 10 minutos, sem pressa, sem broncas e sem telas (celular ou tablet) na mão. O foco deve estar no próprio corpo.

Água e Brincadeira: No clima quente, a perda de água pelo suor é invisível e constante. Criança esquece de beber água enquanto brinca. Deixe garrafinhas coloridas sempre à vista e espalhadas pela casa.

O Sinal de Alerta para os Pais

O uso de laxantes por conta própria ou supositórios frequentes pode machucar a região anal e traumatizar ainda mais a criança, além de viciar o intestino.

Fique atento aos sinais de alerta: se a criança passa mais de três ou quatro dias sem evacuar, chora de dor, apresenta sangramentos vivos nas fezes ou começa a “borrar” a calcinha ou cueca involuntariamente (o chamado escape fecal, provocado pelo acúmulo crônico), é hora de buscar ajuda médica com um pediatra ou especialista.

Tratar o intestino preso na infância exige acolhimento, tempo e, acima de tudo, a compreensão de que o bloqueio, muitas vezes, começa na cabecinha deles, e não apenas na barriga.

Camila Maria Silva Leite.
Nutricionista Pediátrica e Terapeuta Alimentar.
CRN-11/15471


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