13 de agosto de 2026

Uso de testosterona sem indicação pode estar associado a maior risco cardiovascular, aponta estudo com mais de 350 mil homens

Pesquisa internacional publicada em 2026 chama atenção para a importância de confirmar o diagnóstico de deficiência de testosterona antes de iniciar o tratamento

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Uso de testosterona sem indicação pode estar associado a maior risco cardiovascular, aponta estudo com mais de 350 mil homens (Foto: DepositPhotos)

O uso de testosterona tem crescido nos últimos anos, inclusive entre homens que não apresentam diagnóstico confirmado de deficiência hormonal. Um novo estudo internacional, publicado na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet, traz um alerta importante: homens que iniciaram terapia com testosterona sem evidências documentadas de hipogonadismo apresentaram maior risco cardiovascular a longo prazo quando comparados a homens que receberam o tratamento no contexto de deficiência de testosterona.

A pesquisa analisou dados de 358.957 homens entre 30 e 75 anos, provenientes de 123 organizações de saúde de diferentes regiões do mundo. Cerca de um terço dos participantes que iniciaram testosterona, 127.152 homens (35,4%) não apresentava evidências registradas de deficiência de testosterona.

Após um processo de pareamento estatístico que buscou tornar os grupos comparáveis, foram acompanhados 113.554 pares de homens, com seguimento de até dez anos.

Maior risco cardiovascular entre os homens sem hipogonadismo documentado

O principal desfecho analisado foi a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores, conhecidos pela sigla MACE, que inclui morte por qualquer causa, infarto, acidente vascular cerebral isquêmico e parada cardíaca.

Em dez anos, esses eventos ocorreram em 16,53% dos homens que receberam testosterona sem evidência de deficiência de testosterona, contra 11,83% daqueles tratados no contexto de hipogonadismo.

Isso correspondeu a um risco relativo maior de aproximadamente 51% no grupo sem evidência de deficiência hormonal.

Também foram observadas associações com um risco aumentado para mortalidade por qualquer causa, acidente vascular isquêmico, parada cardíaca e insuficiência cardíaca.

O estudo não significa que testosterona seja “perigosa”

Esse trabalho não permite afirmar que a testosterona causa doenças cardiovasculares. O desenho do estudo é observacional e compara dois grupos de homens que receberam testosterona. O que ele mostra é uma associação entre o uso sem evidência documentada de deficiência de testosterona e, portanto, sem indicação para usar testosterona e maior risco cardiovascular no longo prazo.

Essa distinção é particularmente importante porque estudos anteriores chegaram a resultados diferentes. O próprio artigo destaca que pesquisas randomizadas, incluindo o estudo TRAVERSE, não demonstraram aumento de eventos cardiovasculares maiores em homens com real deficiência de testosterona tratados de maneira adequada e acompanhados de perto.

Ou seja, não é possível colocar no mesmo grupo o tratamento de reposição hormonal de um homem com deficiência de testosterona comprovada e o uso da testosterona por homens que apresentam níveis hormonais normais.

Por que o diagnóstico é tão importante?

A testosterona não deve ser encarada simplesmente como um tratamento para melhorar disposição, composição corporal, desempenho físico ou envelhecimento.

O diagnóstico de deficiência de testosterona (hipogonadismo) exige avaliação clínica associada à confirmação laboratorial da deficiência hormonal. O estudo reforça que as diretrizes atuais recomendam a terapia principalmente para homens com níveis de testosterona consistentemente baixos e desencorajam seu uso em homens com níveis de testosterona normais.

Além disso, a testosterona pode provocar aumento do hematócrito  (aumento da concentração de glóbulos vermelhos no sangue), pode influenciar pressão arterial e outros parâmetros cardiovasculares. No estudo, entre os homens que receberam testosterona sem evidência de hipogonadismo, aqueles que já apresentavam hematócrito acima de 50% tiveram risco discretamente maior de eventos cardiovasculares.

Um alerta para o uso da testosterona como “anti-aging”

Um dos aspectos mais relevantes da pesquisa é o número de homens que estavam utilizando testosterona sem evidência documentada de deficiência hormonal: aproximadamente um em cada três usuários.

Esse dado chama atenção para uma prática cada vez mais discutida: a utilização de testosterona com o objetivo de combater o envelhecimento, melhorar energia, aumentar massa muscular ou otimizar desempenho em homens que não apresentam hipogonadismo comprovado.

Testosterona é um tratamento médico, e não simplesmente um suplemento hormonal. Antes de prescrever, é necessário entender por que o paciente apresenta sintomas, confirmar se existe deficiência hormonal e avaliar riscos e benefícios individualmente.

Ainda há perguntas sem resposta

Os próprios autores reconhecem limitações importantes. Como se trata de um estudo retrospectivo baseado em registros eletrônicos, não foi possível determinar com precisão a dose utilizada, a formulação da testosterona, a duração efetiva do tratamento, a adesão ou eventuais interrupções.

Além disso, a ausência de um diagnóstico de hipogonadismo no banco de dados não significa necessariamente que o paciente não tivesse deficiência hormonal. Alguns homens podem ter apresentado exames ou sintomas que não foram registrados na base analisada.

Por isso, os pesquisadores ressaltam que os resultados devem ser interpretados como associações, e não como prova de que a testosterona tenha causado os eventos cardiovasculares.

A principal mensagem para os pacientes

O estudo acrescenta uma informação importante ao debate sobre segurança cardiovascular da testosterona: o contexto em que o tratamento é iniciado parece ser fundamental.

Não se trata de demonizar a testosterona. Quando há a deficiência de testosterona, é importante investigar a causa. Por trás desta deficiência pode haver outras condições de saúde que exigem tratamento específico. Ainda assim, a testosterona pode ser um tratamento importante e trazer benefícios. A questão é não transformar a testosterona em uma terapia indiscriminada para o envelhecimento.

Referência

Kerniss H, Curman P, Olbrich H, Kridin K, Francis R, Leistner DM, Alam U, Ludwig RJ. Off-label testosterone therapy is associated with higher long-term cardiovascular risk in men. EBioMedicine. 2026 Jul 9;130:106373.


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