21 de setembro de 2026

Suplementos: quando cuidar da saúde virou uma lista de cápsulas?

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Foto: Magnific/Reprodução

Por Giuliano Aita, Urologista, Mestre e Doutor em Urologia

Existe uma cena cada vez mais comum: alguém abre o armário da cozinha e encontra uma pequena farmácia. Vitamina D. Magnésio. Ômega-3. Whey protein. Creatina. Multivitamínico. Colágeno. Probióticos. Produtos para “imunidade”. Outros para “energia”. E, mais recentemente, uma coleção de substâncias com promessas de longevidade.

A pergunta é simples: Quantos deles são realmente necessários?

Um levantamento recente nos Estados Unidos mostrou a dimensão do fenômeno: aproximadamente oito em cada dez adultos entrevistados relataram utilizar algum suplemento alimentar. Vitaminas e minerais estavam entre os produtos mais utilizados, enquanto cerca de um terço dos participantes relatou consumir suplementos proteicos. O mercado cresce porque a promessa é extremamente atraente: melhorar a saúde com algo simples, rápido e aparentemente seguro. Mas saúde raramente funciona dessa maneira.

O nome “suplemento” já explica sua função. Suplementar significa complementar. Não significa substituir alimentação, exercício, sono ou tratamento médico.

Existem situações em que a suplementação é necessária e importante. Uma deficiência nutricional documentada, determinadas fases da vida, algumas doenças ou situações clínicas específicas podem justificar o uso de vitaminas, minerais ou outros nutrientes.

O problema aparece quando o suplemento deixa de complementar uma necessidade e passa a ser consumido simplesmente porque “faz bem”. É aí que a lógica se inverte.

A dieta continua sendo o ponto de partida

Imagine duas pessoas. A primeira se alimenta mal durante a semana e tenta compensar isso com dez cápsulas por dia.

A segunda organiza uma alimentação equilibrada, pratica atividade física regularmente, dorme bem e utiliza um suplemento apenas quando existe uma necessidade específica.

Qual delas está fazendo mais pela própria saúde? A resposta provavelmente não está no número de potes sobre a bancada.

Uma alimentação adequada oferece uma combinação de proteínas, fibras, vitaminas, minerais e diversos outros componentes que não podem ser reproduzidos simplesmente isolando um nutriente e colocando-o dentro de uma cápsula.

Whey protein é necessário?

O whey protein é um bom exemplo de como precisamos separar utilidade de necessidade.

Para algumas pessoas, ele é extremamente conveniente. Quem treina e tem dificuldade de alcançar sua necessidade diária de proteína pode utilizá-lo como uma ferramenta prática. Mas isso não significa que todos precisem tomar whey. O mesmo vale para barras e bebidas proteicas.

A proteína deve vir preferencialmente de alimentos como ovos, carnes, peixes, leite e derivados, feijões e outras fontes. Não é o suplemento que determina o resultado. O treinamento de força é um dos principais estímulos para a manutenção e o desenvolvimento da musculatura. Tomar proteína sem treinar adequadamente dificilmente produzirá a transformação prometida por muitas propagandas.

Ômega-3: alimento ou cápsula?

Outro exemplo interessante é o ômega-3.

O consumo de peixes faz parte de padrões alimentares associados à boa saúde cardiovascular. Isso, porém, não significa que uma cápsula de óleo de peixe reproduza todos os efeitos de uma alimentação que inclui regularmente esses alimentos. Estudos clínicos com suplementos de ômega-3 produziram resultados menos impressionantes do que muitas campanhas comerciais sugerem. A mensagem não é que ômega-3 seja inútil. É que o benefício de um nutriente dentro de um alimento não pode ser automaticamente transferido para uma cápsula. Essa diferença é fundamental.

Talvez a tendência mais curiosa seja a transformação da suplementação em uma indústria da longevidade. Agora não basta querer viver bem. Queremos desacelerar o envelhecimento, melhorar a performance, aumentar a energia, proteger o cérebro, melhorar a testosterona e viver mais. São objetivos legítimos, mas uma promessa comercial não é evidência científica. Muitas substâncias são vendidas com base em estudos laboratoriais, experimentos em animais ou pequenas pesquisas preliminares. Isso pode ser interessante para a ciência, mas está muito longe de demonstrar que tomar determinada cápsula diariamente fará uma pessoa viver mais.

O fato de uma substância ter um mecanismo biológico interessante não significa que ela produza um benefício clínico relevante.

Natural também pode fazer mal

Outro erro comum é imaginar que o risco está apenas nos medicamentos. Não está. Doses excessivas de determinados nutrientes podem provocar toxicidade. Alguns produtos fitoterápicos podem causar problemas hepáticos. Outros podem interferir na ação de medicamentos. Existe ainda uma questão de qualidade: a composição real de um produto pode não corresponder perfeitamente à expectativa criada pela propaganda.

Por isso, existe indicação e existe evidência de benefício?

Existe uma conclusão curiosa quando analisamos a obsessão atual por suplementos.Muitos dos fatores que mais influenciam nossa saúde são pouco interessantes comercialmente.Dormir bem não vem em cápsulas. Fazer musculação não vem em sachê. Perder excesso de gordura corporal não exige um pote sofisticado. Comer melhor não precisa de uma assinatura mensal.

Controlar pressão, glicemia, colesterol e outros fatores de risco não depende de um “kit de longevidade”. Essas medidas são menos glamorosas, mas têm uma quantidade muito maior de evidências por trás.

Antes de comprar, faça três perguntas

Não sou contra suplementos. Sou contra o uso automático, indiscriminado e baseado apenas em propaganda.

  1. Existe uma necessidade real?
  2. Há evidência de que ele produz o benefício que estou procurando?
  3. Pode haver algum risco ou interação com outros medicamentos?

Se essas três perguntas não tiverem respostas claras, talvez seja melhor conversar com um profissional de saúde antes de começar. No final, talvez a maior revolução da saúde masculina não seja descobrir a próxima cápsula milagrosa. Talvez seja redescobrir algo muito mais simples: comer bem, movimentar o corpo, dormir adequadamente, controlar os fatores de risco e fazer prevenção.


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