
Os registros de violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no Piauí cresceram em 103,4% em 2025. Dados divulgados nesta quarta-feira (23) pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Piauí mostram que foram contabilizados 1.949 registros de vítimas ao longo do ano passado, contra 958 ocorrências registradas no levantamento anterior.
Segundo o 4º Boletim de Dados de Violência Contra a Pessoa LGBTQIAPN+ no Piauí, os crimes patrimoniais e os praticados no ambiente virtual tiveram destaque no período. O estelionato liderou os registros, com 482 casos (24,73%), seguido por ameaça, com 280 ocorrências (14,37%), e furto, com 247 registros (12,67%).
Os dados mostram que os crimes contra o patrimônio continuam concentrando grande parte das ocorrências. Somados, estelionato, furto e roubo representam 44,12% dos registros. Já os crimes contra a honra, como injúria, difamação e calúnia, correspondem a 13,24% dos casos analisados.
Por outro lado, os episódios de violência física aparecem em menor proporção. Lesão corporal e vias de fato somaram 97 registros, o equivalente a 4,98% das ocorrências. Já os crimes tipificados explicitamente como discriminação, incluindo injúria racial e racismo, representaram 2,57% do total.

Jovens e pessoas negras são as principais vítimas
O perfil das vítimas manteve características semelhantes às registradas nos anos anteriores. A maior parte dos casos envolve pessoas entre 18 e 34 anos, faixa etária que concentra 65,52% dos registros. Apenas o grupo entre 18 e 24 anos respondeu por 25,65% das ocorrências.
A análise por raça/cor também aponta predominância de vítimas negras. Pessoas pardas e pretas somaram 71,93% dos registros, sendo 58,75% pardas e 13,19% pretas.
Entre os grupos registrados no boletim, pessoas bissexuais aparecem com a maior quantidade de ocorrências, representando 30,89% dos registros, seguidas por gays, com 22,16%. Pessoas transexuais e travestis somaram 262 registros, o equivalente a 13,44% do total.

Internet se consolida como espaço de violência
O levantamento destaca o crescimento da violência no ambiente digital. A internet apareceu como local da ocorrência em 358 registros, correspondendo a 18,37% dos casos analisados. O percentual coloca o ambiente virtual atrás apenas das residências, que concentraram 26,63% das ocorrências.
De acordo com o boletim, a presença da internet entre os principais cenários de vitimização está relacionada principalmente aos registros de estelionato e invasão de dispositivo informático, que figuram entre os crimes mais frequentes praticados contra essa população.
Já a residência foi apontada como o principal local dos crimes, indicando que parte significativa da violência ocorre dentro do espaço doméstico e familiar.
Casos chegam a 157 municípios

Os registros foram identificados em 157 dos 224 municípios piauienses, o equivalente a uma cobertura territorial de 70,1%. No levantamento anterior, a presença de ocorrências alcançava 41% dos municípios do estado.
Teresina concentrou a maior quantidade de registros, com 1.029 ocorrências. Em seguida aparecem Parnaíba, com 176 casos, e Picos, com 50.
Apesar da concentração na capital, os dados apontam distribuição próxima entre Teresina e o interior. Enquanto a capital registrou 1.029 ocorrências, os demais municípios somaram 920 registros. Para a SSP, o resultado indica que a violência contra a população LGBTQIAPN+ não se restringe aos grandes centros urbanos.
Sem transfeminicídios e lesbofeminicídios
Um dos principais indicadores apresentados pelo boletim foi a ausência de registros de transfeminicídio e lesbofeminicídio em 2025. No ano anterior, o estado havia contabilizado um transfeminicídio e três lesbofeminicídios.
O levantamento também aponta redução dos homicídios dolosos e dos casos classificados como racismo por homofobia ou transfobia na comparação com o ano anterior. Por outro lado, houve aumento nos registros de lesão corporal dolosa e estupro.
Segundo a metodologia adotada no estudo, a unidade de análise é o registro da ocorrência, e não a vítima. Isso significa que uma mesma pessoa pode aparecer mais de uma vez na estatística caso tenha sido vítima de mais de um crime em um único boletim de ocorrência. Além disso, ocorrências não criminais foram excluídas da análise.
Confira o boletim na integra
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