24 de setembro de 2026

Filmes produzidos no Piauí durante a ditadura militar são restaurados e voltam às telas

Acervo cinematográfico produzido por estudantes da UFPI durante a ditadura militar voltam às telas com imagens recuperadas em resolução 2K

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Foto: Reprodução/ Parada de Cinema

Produções realizadas por jovens universitários piauienses há mais de quatro décadas voltarão a ser exibidas ao público em Teresina. Sete filmes do grupo Mel de Abelha, gravados entre 1980 e 1985 em formato Super-8, foram restaurados e integram a programação da 9ª Parada de Cinema, prevista para ocorrer entre os dias 7 e 10 de outubro.

As obras retratam diferentes aspectos da realidade piauiense da época, abordando temas ligados à cultura popular, religiosidade, moradia e relações de trabalho. As cópias restauradas serão exibidas em resolução 2K, resultado de um processo de digitalização e recuperação conduzido nos últimos anos.

O trabalho teve participação da Cinelimite, iniciativa dedicada à preservação audiovisual brasileira. Segundo o restaurador Willame Plotnick, a recuperação do acervo começou após contatos com Dácia Ibiapina, uma das integrantes do Mel de Abelha. A partir das primeiras digitalizações, a equipe identificou a existência de outros filmes produzidos pelo coletivo e iniciou uma busca pelo material original.

Parte do processo ocorreu na Universidade Federal do Piauí (UFPI), com a colaboração de antigos integrantes do grupo, entre eles Luís Carlos Sales e Valderi Duarte. O primeiro título recuperado foi Pagode de Amarante, lançado em 1984.

Foto: Reprodução/ Parada de Cinema

As películas permaneceram guardadas durante décadas nas residências dos realizadores. Embora essa forma de armazenamento tenha contribuído para que o material sobrevivesse ao tempo, ela também trouxe desafios para a preservação das imagens.

“Depois de mais de 40 anos, havia perda de cor, de luminosidade e outros sinais de degradação”, explicou Willame.

Segundo ele, a restauração exigiu intervenções para recuperar características visuais das produções sem descaracterizar a estética original das filmagens em Super-8.

“Houve correção de cor e luz, compensação do desbotamento da película, estabilização da imagem e redução de sujeiras e outros problemas acumulados ao longo das décadas. A partir desse trabalho, produzimos novas matrizes digitais em 2K, preparadas para preservação, exibição e acesso”, afirmou.

Coletivo marcou o cinema independente no Piauí

Foto: Reprodução/ Parada de Cinema

Formado por estudantes da UFPI, o Mel de Abelha reuniu nomes como Dácia Ibiapina, Valderi Duarte, Luís Carlos Sales, Socorro Melo, Lourena Rego e Rosemberg Peixoto. Durante a primeira metade dos anos 1980, o grupo produziu uma série de curtas-metragens de forma colaborativa.

De acordo com Willame Plotnick, as decisões criativas eram tomadas coletivamente, desde a elaboração dos roteiros até as etapas de gravação e montagem.

Na mostra deste ano serão exibidos os filmes Povo Favela, Relógio de Sol, Espaço Marginal, Dia de Passos, Pagode de Amarante, Pai Herói e Da Costa e Silva. A programação completa do evento ainda será divulgada pela organização.

Foto: Reprodução/ Parada de Cinema

Integrante do grupo, Dácia Ibiapina relembra que a vontade de produzir filmes surgiu a partir do contato com movimentos culturais e cineclubes que atuavam no Nordeste naquele período.

“A gente tinha a experiência de cinema como espectador e surgiu o desejo de se expressar através dos filmes. Na época, existia um movimento muito forte no Nordeste. E no Piauí tinha o Cineclube Terezinense”, recordou.

Para Valderi Duarte, a restauração representa uma oportunidade de preservar parte da memória audiovisual do estado e apresentá-la a novas gerações.

“A gente filmou de forma precária, mas é um registro, porque a imagem era muito forte e ela fica, ela registra. Me sinto muito feliz, muito gratificado por esses filmes terem sido recuperados, restaurados e preservados para o futuro. Um futuro que é cada vez mais incerto”, concluiu.


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