21 de fevereiro de 2026

Desdolarização em curso e a volta do padrão-ouro

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Por que bancos centrais estão comprando ouro? (Foto: g1)

Apesar do dólar manter posição dominante como moeda de reserva — mais de 55–58% das reservas globais — vários indicadores apontam para mudanças estruturais na composição das reservas internacionais. Segundo dados de pesquisas do World Gold Council, centrais bancárias continuaram a intensificar compras de ouro nos últimos anos, reduzindo proporcionalmente a participação de reservas em dólares e títulos do Tesouro dos EUA. Em 2025, pela primeira vez desde 1996, o valor total do ouro detido por bancos centrais superou o valor dos títulos do Tesouro norte-americanos nos cofres estrangeiros.

Esse fenômeno — associado à resposta a riscos de sanções, incertezas fiscais e diversificação de riscos — é interpretado por analistas como uma forma moderada de desdolarização nas reservas oficiais: não uma substituição absoluta do dólar, mas uma redução gradual da dependência exclusiva da moeda americana.

Países com Movimentos Relevantes de Compra de Ouro (e Redução de Dólares)

China

A China tem sido um dos maiores compradores de ouro nas últimas décadas. Reportagens indicam que o People’s Bank of China acumulou mais de 2.2 mil toneladas de ouro, aumentando sua participação no total de reservas e reduzindo proporcionalmente os ativos denominados em dólares. Isso está diretamente ligado à estratégia chinesa de redução de vulnerabilidades a sanções e à acumulação de ativos de reserva mais neutros.

Rússia

Embora dados oficiais mais recentes sejam menos transparentes, a Rússia intensificou compras de ouro após as sanções ocidentais de 2022. Moscou buscou reduzir exposição a ativos em dólar justamente para neutralizar riscos de congelamento de reservas estrangeiras. Esse foi um dos primeiros movimentos modernos de desdolarização estratégica de um grande país exportador de energia e commodities.

Índia

Relatórios também mostram que a Índia trocou parte de seus títulos do Tesouro dos EUA por ouro, refletindo um movimento cauteloso de diversificação e busca por proteção de reservas. Isso segue um padrão semelhante ao de vários países de mercados emergentes que tentam diluir riscos cambiais e concentrar reservas em ativos com menor risco de contraparte.

Outros países emergentes

Países menores ou de mercados emergentes — incluindo Turquia, Cazaquistão, Polônia, Peru e República Checa — mantêm séries constantes de compras de ouro como estratégia de proteção. Embora nenhuma grande economia mundial tenha anunciado um retorno formal ao padrão-ouro, esses movimentos refletem um impulso global à acumulação de ouro como ativo de reserva em contraste com títulos denominados em dólar.

Brasil

O Banco Central do Brasil tem aumentado sua exposição a ouro nos últimos anos, mas em termos absolutos e relativos essa acumulação ainda é moderada comparada com China ou Rússia. A aquisição de ouro está alinhada a uma política tradicional de diversificação de reservas, não a um programa explícito de substituição rápida de dólares. Os dados atuais sugerem que o Brasil busca reduzir gradualmente a concentração em papéis norte-americanos, mas sem adotar um padrão-ouro formal ou desdolarização radical.

A diferença entre desdolarização e padrão-ouro

É importante separar dois conceitos que muitas vezes são confundidos:

  • Desdolarização

Refere-se ao processo pelo qual nações diminuem o peso dos ativos denominados em dólar (especialmente títulos do Tesouro dos EUA) em seus portfólios de reservas estrangeiras, substituindo parte desses ativos por outras moedas (euro, renminbi), ativos reais (ouro) ou instrumentos alternativos. Esse movimento busca reduzir riscos associados à política fiscal/monetária dos EUA, usar menos dólares nas transações comerciais ou proteger-se de sanções.

  • Padrão-Ouro

O padrão em que o valor da moeda é vinculado diretamente a ouro — algo não reclamado oficialmente por bancos centrais contemporâneos. Apesar do ouro voltar a ganhar peso em reservas, nenhum banco central sério anunciou retorno formal ao padrão-ouro como regime monetário. Economistas reconhecem que tal retorno faria os bancos centrais perderem a flexibilidade de política monetária que consideram essencial para gerir choques econômicos e crises.

Motivações econômicas e financeiras por trás da adoção de ouro

  • Diversificação e Redução de Risco de Contraparte

Ouro é um ativo sem risco de contraparte e resistente a sanções, ao contrário de títulos de dívida estrangeira. Em contextos de tensões geopoliticas ou incerteza sobre políticas monetárias — como a dos EUA — o ouro funciona tanto como reserva de valor quanto como seguro contra perdas em reservas cambiais.

  • Hedge contra inflação e incertezas macroeconômicas

Com volatilidade cambial e preocupações fiscais a nível global, ouro tem sido utilizado como proteção contra inflação e choques financeiros, especialmente por países com balanços menos estáveis ou alta dependência de commodities.

Consequências potenciais para o sistema financeiro global

Maior volatilidade nos mercados de títulos do tesouro dos EUA

Se bancos centrais continuarem a reduzir posições em Treasuries, pode haver pressão ascendentes nas taxas de juros globais, já que os preços dos títulos cairiam frente a menor demanda oficial. Isso aumentaria os custos de financiamento global e poderia afetar a política monetária dos EUA.

Potencial fortalecimento de sistemas multipolares

Com aumento na diversificação de reservas em diferentes moedas e ativos, o sistema financeiro global pode evoluir para um regime mais multipolar, onde euro, yuan, ouro e outras moedas ganham peso relativo frente ao dólar. Isso pode reduzir o “privilégio exorbitante” que o dólar desfruta desde Bretton Woods.

Impactos sobre fluxos de capital e mercados emergentes

Economias emergentes que lideram a acumulação de ouro podem experimentar menor vulnerabilidade a choques de política monetária externa, mas também enfrentam risco de menor liquidez global se o ouro se tornar parte mais central das reservas. Isso pode tornar os mercados de crédito globais mais sensíveis às expectativas de inflação e juros.

Entre a desdolarização parcial e a realidade monetária – em síntese:

O movimento de substituição de parte dos dólares por ouro nas reservas internacionais está ocorrendo e representa um ajuste relevante no sistema financeiro global. Países como China, Rússia, Índia e vários emergentes estão reequilibrando ativos, aumentam reservas de ouro e reduzem gradualmente posições em títulos norte-americanos. Isso reflete tanto motivações geopolíticas quanto econômicas diante de um mundo pós-sanções e com incertezas fiscais persistentes.

Contudo, a desdolarização ainda é gradual e não se trata de um retorno ao padrão-ouro formal ou de substituição total do dólar como moeda de reserva global no curto prazo. O dólar continua dominante, e bancos centrais ainda mantêm grande parte de suas reservas em compliance com as necessidades de liquidez e transações internacionais.

Mário Augusto Teles
Economista


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