O câncer de próstata é o segundo tumor mais comum entre homens no mundo e representa cerca de 15% de todos os diagnósticos de câncer masculinos. Apesar dos avanços no diagnóstico e tratamento, ainda existem poucos fatores modificáveis claramente estabelecidos para sua prevenção.
Nos últimos anos, um tema que desperta curiosidade e tem ganhado respaldo científico: a frequência de ejaculação pode estar associada a menor risco de câncer de próstata.
Mas o que a ciência realmente diz sobre isso?
O estudo que mudou o debate
A pesquisa mais robusta sobre o tema vem da Universidade de Harvard, acompanhando mais de 31 mil homens ao longo de quase duas décadas. O estudo, publicado na revista European Urology, mostrou que homens que relataram 21 ou mais ejaculações por mês apresentaram cerca de 20% menos risco de desenvolver câncer de próstata quando comparados àqueles com frequência entre 4 e 7 ejaculações mensais.
O dado mais interessante:
A associação foi observada principalmente para tumores de baixo risco.
Ou seja, não se trata de uma “proteção absoluta”, mas de uma possível redução estatística relevante.
A ciência confirma? Nem tanto.
Uma revisão publicada recentemente na revista Clinical Genitourinary Cancer analisou diversos estudos sobre o tema e concluiu que, embora haja tendência de associação inversa, ainda não existe consenso absoluto na literatura científica.
Existem diferenças metodológicas entre os estudos, possíveis vieses de memória (já que a frequência é autorreferida) e dificuldade em separar causa de associação.
Em outras palavras: Homens que ejaculam mais podem simplesmente ser homens mais saudáveis de maneira geral.
O que pode explicar essa possível proteção?
Uma revisão mecanística publicada na revista Cancers trouxe hipóteses biológicas que ajudam a entender o fenômeno:
1️⃣ Hipótese da “estagnação prostática”
A próstata produz secreções constantemente. Ejaculações frequentes poderiam reduzir o acúmulo de substâncias potencialmente inflamatórias ou carcinogênicas dentro da glândula.
2️⃣ Regulação hormonal
A ejaculação envolve o eixo androgênico, incluindo testosterona e di-hidrotestosterona (DHT), hormônios diretamente ligados à fisiologia prostática.
3️⃣ Modulação inflamatória
A atividade sexual pode influenciar marcadores inflamatórios e o microambiente prostático, fatores hoje reconhecidos como importantes na carcinogênese.
4️⃣ Sistema nervoso e estresse
A resposta neuroendócrina associada ao orgasmo pode ter impacto indireto sobre processos celulares prostáticos.
Importante:
Esses mecanismos são plausíveis, mas ainda não comprovam causalidade direta.
O que isso significa na prática?
É fundamental deixar claro:
- Nenhuma diretriz médica recomenda aumento da frequência ejaculatória como estratégia formal de prevenção do câncer de próstata.
- A redução de risco observada é estatística e moderada.
- A associação é mais evidente para tumores de baixo risco.
Fatores comprovadamente mais relevantes continuam sendo:
- Controle do peso
- Atividade física regular
- Dieta equilibrada
- Controle metabólico
- Acompanhamento urológico adequado
Saúde sexual também é saúde geral
Embora o tema ainda gere constrangimento em muitos homens, a ciência mostra que saúde sexual ativa costuma estar associada a:
- Melhor função cardiovascular
- Melhor perfil hormonal
- Menor inflamação sistêmica
- Maior qualidade de vida
A frequência ejaculatória pode ser, portanto, mais um marcador de saúde global masculina do que um “remédio preventivo” isolado.
Conclusão
Os dados científicos atuais sugerem que homens com maior frequência ejaculatória apresentam menor incidência de câncer de próstata, especialmente tumores de baixo risco. Contudo, trata-se de uma associação observacional, e não de uma prescrição médica.
A mensagem central é clara:
Cuidar da saúde sexual faz parte do cuidado integral da saúde do homem, mas prevenção de câncer de próstata exige abordagem ampla, baseada em estilo de vida saudável e acompanhamento médico regular.
Dr. Giuliano Aita
Médico urologista e andrologista
Mestre e Doutor em Urologia
Saúde masculina baseada em evidência científicaParte inferior do formulário
Fontes:
Hassan M. et al. Reduction of Prostate Cancer Risk: Role of Frequent Ejaculation-Associated Mechanisms. Cancers (Basel). 2025 Feb 28;17(5):843.
Rider JR.et a.l Ejaculation Frequency and Risk of Prostate Cancer: Updated Results with an Additional Decade of Follow-up. Eur Urol. 2016 Dec;70(6):974-982.
Kokori E et al. Ejaculation Frequency and Prostate Cancer Risk: A Narrative Review of Current Evidence. Clin Genitourin Cancer. 2024 Jun;22(3):102043.
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