
Você chega em casa depois de um dia longo, se joga no sofá e não descansa de verdade. Passa algumas horas no escritório e sente que saiu de lá mais cansado do que deveria. Ou sente a necessidade de sair de uma loja antes mesmo de olhar todas as prateleiras. A sensação é de que o ambiente não colabora. Seu corpo e sua mente parecem notar que algo está errado.
A maioria das pessoas não pensa que os espaços, constantemente, agem sobre nós mesmo quando não estamos prestando atenção. É preciso entender que os ambientes não são neutros, uma vez que eles estimulam, acalmam, oprimem ou libertam, dependendo de como foram pensados (ou não foram).
Quando um ambiente é bem projetado, você nem percebe. Tudo simplesmente flui. Mas quando algo está errado, o corpo registra, mesmo que a mente não consiga nomear o problema. É aquela sensação de que “a casa não te abraça”, que o escritório não deixa você se concentrar, que a loja te faz querer ir.
Isso não é exagero. É arquitetura.
A luz é, provavelmente, o elemento que mais impacta o seu estado de espírito e, mesmo assim, muitas vezes ignorado na hora de escolher ou reformar um imóvel. Ambientes com pouca entrada de luz natural deixam o corpo em estado de alerta baixo o dia todo. Isso afeta o humor, o sono e até a disposição para fazer tarefas simples. Já seu excesso pode criar irritação constante sem que você associe ao ambiente.
Por sua vez, a iluminação artificial mal resolvida faz o mesmo. Ambientes com uma única lâmpada central, forte e de cor fria, não descansam, mas te deixam em constante estado de vigília mesmo à noite. Como solução, é interessante planejar a iluminação em camadas, com pontos diferentes e temperaturas de cor adequadas para cada momento do dia, transformando completamente a forma como você se sente dentro do espaço.
Outro ponto a ser considerado é a circulação dos ambientes, isto é, os caminhos que você é obrigado a percorrer para executar as atividades que precisa. As plantas das edificações podem te cansar fisicamente sem que você perceba. Imagine uma sala disposta de um jeito que faz você dar a volta no sofá toda vez que vai para a varanda, um consultório onde a recepção fica mal posicionada e o paciente não sabe para onde ir ou um escritório onde toda reunião exige uma caminhada até o outro extremo do andar.
Cada um desses percursos, somados ao longo de dias, faz o corpo acumular um esforço desnecessário, de modo que o espaço vira um obstáculo à produtividade e ao bem-estar.
Existe também um tipo de cansaço que vem dos olhos, não da vista cansada pelas telas, mas do cérebro trabalhando sem parar para processar um ambiente com estímulos demais, tentando “organizar” o espaço o tempo todo.
Isso acontece em locais com muitos elementos de estilos diferentes, paredes sobrecarregadas, objetos sem critério de disposição, cores que brigam entre si ou móveis desproporcionais para o espaço. Quando isso ocorre, seu cliente sai da sua loja sem comprar e não volta mais, você não consegue se concentrar no trabalho ou não há um bom descanso em sua própria casa.
Além disso, tem aquela bagunça do cotidiano, que às vezes não é culpa de quem usa o espaço, mas sim da falta de lugares adequados e acessíveis para guardar as coisas, como armários bem pensados, nichos e gavetas no lugar certo. Dessa forma, o caos visual vira permanente e a sensação de que o espaço “nunca está arrumado” corrói a sua energia diária.
Outros dois fatores importantes quando falamos de bem-estar nos ambientes são a temperatura e acústica.
Um espaço quente demais, por falta de ventilação adequada, excesso de vidro sem proteção solar ou cobertura mal isolada, gera irritabilidade constante. O corpo gasta energia regulando a temperatura e as pessoas ficam mais cansadas e impacientes, seja em casa, num ambiente corporativo, numa sala de aula ou num espaço de atendimento ao público.
O barulho age da mesma forma. Um ambiente com muito eco, sem amortecimento sonoro entre os cômodos, provoca um estado de alerta permanente. Em casa, isso mina seu descanso ou, caso faça home office, sua produtividade. Nas escolas, prejudica diretamente o aprendizado. Nos escritórios, compromete a concentração. Em espaços de saúde, afeta a sensação de acolhimento e privacidade.
Agora você consegue entender por que Arquitetura não é apenas sobre deixar o espaço bonito? Ela se relaciona bem mais sobre fazer o ambiente trabalhar a seu favor. Um bom projeto pensa em como a luz vai se comportar ao longo do dia, planeja os caminhos que você vai percorrer centenas de vezes, cria lugares certos para cada coisa, escolhe proporções que respiram, considera o som, o calor, o olhar.
O usuário sente tudo isso, embora raramente consiga identificar o que está certo ou errado sozinho. É exatamente aí que entra o olhar do arquiteto: não para impor um estilo, mas para enxergar o que você não vê e traduzir isso em um espaço que finalmente funciona de verdade.
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