21 de abril de 2026

O 21 de abril e a fabricação de Tiradentes

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“Tiradentes”. Décio Villares (1890)

Neste 21 de abril, celebramos o Dia de Tiradentes, um dos feriados nacionais do calendário brasileiro. Todavia, esta data nem sempre existiu. Tiradentes, alcunha pela qual o alferes Joaquim José da Silva Xavier era conhecido, certamente era um personagem desconhecido para a imensa maioria dos brasileiros do século XIX. A transformação do conjurado mineiro no herói número um do panteão nacional e sua mitificação através de telas, monumentos, logradouros, cidades e feriados é um fenômeno estreitamente ligado a instauração da República brasileira, em 1889.

O alferes, tropeiro e dentista prático fez parte da Conjuração Mineira, uma conspiração orquestrada pela elite de Minas Gerais para declarar a independência daquela capitania e criar uma república nos moldes daquela estabelecida nos EUA. Todavia, os planos foram por água abaixo, levando a prisão dos conjurados.

A Coroa portuguesa pretendia restabelecer a ordem colonial na região, entretanto, isto deveria ser feito na dose certa para não aprofundar as dissensões com a elite local. Por isso, a rainha Maria I substituiu a pena de morte dos figurões da capitania por degredo, fazendo recair toda a gravidade do crime de lesa-majestade sobre os ombros do alferes Joaquim José da Silva Xavier que, além da origem social inferior, tinha assumido a responsabilidade da conspiração. Em 21 de abril de 1792, Tiradentes foi enforcado e teve seu corpo esquartejado num espetáculo público que deveria servir de exemplo para os súditos do Império português.  

Após sua execução, o alferes caiu no ostracismo, afinal, a dinastia Bragança continuou governando o Brasil depois da independência, não tendo nenhum motivo para reavivar a imagem de um “rebelde” que desafiou o domínio português na América. É verdade que o historiador Adolfo Varnhagen, um dos baluartes da construção do Estado Nacional brasileiro, cita Tiradentes na sua “História Geral do Brasil” (1857), todavia, o conjurado mineiro aparece em sua obra como um homem leviano, atrevido e mentiroso.

Em seu livro “Formação das Almas”, o historiador José Murilo de Carvalho argumentou que “a elaboração de um imaginário é parte integrante da legitimação de qualquer regime político”, o que não poderia ser diferente quando da instalação da República no Brasil. A criação de um imaginário republicano mobilizou diversas estratégias entre as quais podemos destacar a fabricação de símbolos como a bandeira, o hino, os monumentos e os heróis do panteão nacional. O caráter do movimento que resultou no golpe de 15 de novembro de 1889 não fornecia um campo adequando para a construção de heróis, era necessário investir num personagem que despertasse a identificação e admiração dos brasileiros. Foi aí que os republicanos resgataram a figura de Tiradentes.

Não cabe aqui discorrer sobre o papel que Tiradentes exerceu na Conjuração Mineira, mas sim como sua imagem foi apropriada para a fabricação do imaginário republicano. Essa construção evoca o alferes como patriota, soldado e herói cívico, aquele que se sacrificou pela República. Entretanto, outro elemento fundamental neste processo foi a associação entre Tiradentes e Jesus Cristo, feita por republicanos como Luis Gama e Castro Alves. Segundo esta narrativa, Joaquim e Jesus foram traídos por alguém próximo a eles, condenados a morte por um governo despótico, supliciados publicamente e sacrificaram-se por um bem maior. Com esta imagem todos podiam se identificar, Tiradentes não dividia as pessoas, as classes sociais, nem o país, ao contrário, era um símbolo de unidade.

“Tiradentes esquartejado”. Pedro Américo (1892)

A associação de Tiradentes a Jesus foi bastante difundida nas artes plásticas do final do século XIX e início do século XX, destacando-se as telas “Tiradentes” (1890), de Décio Villares e “Tiradentes esquartejado” (1893), de Pedro Américo; mas também na escultura, sobressaindo-se as estátuas produzidas pelo artista Virgílio Cestari (1894) e Francisco de Andrade (1924). As homenagens ao inconfidente começaram poucos dias depois do golpe republicano, em 6 de dezembro de 1889, com a mudança do nome da cidade mineira de São José del-Rei para Tiradentes. O 21 de abril foi fixado como feriado nacional pelo Decreto nº 155-B, de janeiro de 1890. No início de seu governo, o ditador Castelo Branco alçou o conjurado mineiro à condição de “patrono cívico da Nação brasileira”.

Estátua de Tiradentes esculpida por Virgílio Cestari (1894)

O fato de o alferes mineiro pertencer ao eixo Centro-Sul, região hegemônica na configuração da República brasileira, também não pode ser ignorado quando pensamos na sua escolha para integrar o lugar máximo do panteão nacional. Os recortes geográficos, étnico-racial e de gênero também explicam por que este panteão excluiu outros personagens notáveis na história do movimento republicano brasileiro como Frei Caneca, Bárbara de Alencar e os quatro mártires negros da Bahia que foram enforcados e esquartejados quase na mesma época de Tiradentes: Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga e João de Deus.

Para quem pretende conhecer Tiradentes para além dos mitos, recomendo a excelente biografia do alferes escrita pelo historiador Lucas Figueiredo. Também indico o filme “Joaquim” (2017) do diretor Marcelo Gomes, penso que o Tiradentes apresentado nessa película seja o que mais aproxima do alferes mineiro que viveu há mais de dois séculos.


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