
Um espaço subterrâneo conhecido popularmente como “Porão da Ditadura”, localizado na Central de Artesanato Mestre Dezinho, no centro de Teresina, passou a ser alvo de um levantamento técnico especializado realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI). O estudo indica que o local pode estar associado a práticas de repressão ocorridas durante o período da Ditadura Militar (1964–1985).
A investigação foi realizada por uma equipe do Laboratório de Osteoarqueologia da UFPI (LOA/UFPI), sob coordenação da bioarqueóloga e professora Claudia Cunha, e teve como foco um cômodo subterrâneo acessado por alçapão, cujas características arquitetônicas são compatíveis com construções institucionais brasileiras das décadas de 1940 a 1970.
Durante o levantamento, autorizado previamente pelos permissionários do espaço, os pesquisadores analisaram elementos arquitetônicos como escadas em granilite, paredes revestidas com marmorite e piso de ladrilho hidráulico, materiais amplamente utilizados em edificações públicas do período.
As análises envolveram abordagens da Arqueologia Histórica, Arqueologia Forense e Bioarqueologia.
Segundo Claudia Cunha, este é o primeiro estudo do tipo no Piauí voltado à investigação de um possível espaço associado à repressão violenta durante o regime militar.
“Do ponto de vista dos Direitos Humanos, preservar esse tipo de local e suas evidências físicas, materiais e a oralidade é fundamental para que a sociedade se lembre de crimes que não devem ser repetidos”, destacou a pesquisadora.

Um dos achados que mais chamaram a atenção da equipe foi a identificação de marcas nas superfícies do ambiente, além de manchas orgânicas invisíveis a olho nu, reveladas por meio de iluminação com luz ultravioleta.
De acordo com os pesquisadores, o cenário sugere a possibilidade de que essas manchas sejam resíduos de sangue, compatíveis com relatos históricos e testemunhos de vítimas de prisões arbitrárias, tortura e violência no local.
O próximo passo da pesquisa será a coleta de amostras para confirmar a origem das manchas e aprofundar as análises periciais.
A professora alerta ainda que o espaço se encontra ameaçado por projetos de reforma arquitetônica, o que pode comprometer evidências históricas importantes. Diante disso, a equipe técnica recomenda que o local seja preservado até a conclusão de estudos mais aprofundados, considerando seu possível valor histórico e probatório.
O prédio que hoje abriga a Central de Artesanato Mestre Dezinho possui uma trajetória histórica significativa. Construído durante o processo de transferência da capital do Piauí de Oeiras para Teresina, entre 1844 e 1852, o edifício já sediou o Estabelecimento de Educandos Artífices do Piauí, no século XIX, e, posteriormente, funcionou por mais de um século como Quartel do Comando Geral da Polícia Militar do estado.
Durante o regime militar, segundo registros históricos e depoimentos, o local teria sido utilizado como espaço de detenção política, associado a práticas de repressão e tortura.
Os registros coletados pelos pesquisadores deverão subsidiar novos estudos e ampliar o debate sobre a preservação da memória histórica e dos direitos humanos no Piauí.
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