
“Sinto meu coração disparar. Tenho falta de ar, formigamento nas mãos, uma sensação de que algo muito ruim vai acontecer.” Quem atende em consultório de Cardiologia ouve esse relato quase todos os dias. Muitas vezes, depois de uma investigação detalhada, o coração está estruturalmente perfeito. E o diagnóstico é outro: ansiedade.
Por muito tempo, a gente tratou a ansiedade como um problema “da cabeça”, como se mente e corpo fossem dois territórios separados. Mas a Medicina moderna vem mostrando de forma cada vez mais clara que ansiedade e doença cardiovascular caminham juntas — e, em muitos casos, uma alimenta a outra.
Quando estamos ansiosos, nosso corpo entra em um estado de alerta. O sistema nervoso simpático — aquele que prepara o organismo para “lutar ou fugir” — fica permanentemente ligado. O resultado? Aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial, liberação contínua de cortisol (hormônio do estresse) e adrenalina, inflamação de baixo grau e disfunção do endotélio, a delicada camada de células que reveste nossos vasos sanguíneos por dentro. É como se o coração e as artérias trabalhassem em capacidade máxima… o tempo todo!
Estudos publicados em revistas médicas importantes, como o Jornal do Colégio Americano de Cardiologia, mostram que pessoas com transtornos de ansiedade não tratados têm risco significativamente maior de hipertensão, arritmias, infarto e até morte súbita. E não estamos falando de quem passa por um susto pontual — falamos de ansiedade crônica, aquela que se instala silenciosamente e passa a fazer parte do cotidiano da pessoa.
Há, ainda, uma armadilha cruel nessa relação. Os sintomas de ansiedade — palpitações, dor no peito, falta de ar, tonturas — se confundem com sintomas cardíacos. O paciente vai ao pronto-socorro convicto de que está infartando, passa por toda a investigação, e tudo dá normal. Recebe alta: “está tudo bem, é só ansiedade”. Mas não é só. A ansiedade não é bobagem, não é fraqueza, não é falta de fé. É uma condição médica real, com impacto real sobre a saúde.
Por outro lado, o caminho inverso também existe. Pacientes que infartaram, fizeram cirurgia cardíaca ou descobriram alguma doença do coração frequentemente desenvolvem quadros de ansiedade e depressão. E quem não trata esse componente emocional tem pior recuperação, mais reinternações e maior mortalidade. Ou seja: cuidar do coração sem cuidar da mente é cuidar pela metade.
Existe ainda um efeito indireto, talvez ainda mais perigoso. Pessoas ansiosas tendem a dormir mal, comer pior, fumar mais, beber mais álcool e se mover menos. Cada um desses fatores, isoladamente, já é fator de risco cardiovascular. Juntos, formam uma verdadeira bomba-relógio.
Por isso, no consultório, tenho insistido cada vez mais: perguntar sobre o sono, sobre o humor, sobre o nível de preocupação, de estresse. Não dá para olhar apenas para o eletrocardiograma, a glicemia, o colesterol e ignorar o ser humano complexo que existe por trás daqueles números.
A boa notícia é que ansiedade tem tratamento — e tratar ansiedade é, sim, tratar o coração. A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, tem evidência sólida de benefício. A atividade física regular é, talvez, o “remédio” com melhor relação custo-benefício para os dois lados: faz bem para o coração e reduz sintomas ansiosos. Práticas de meditação, mindfulness, ioga, contato com a natureza, sono de qualidade e relacionamentos saudáveis também ajudam muito. Em alguns casos, a medicação se faz necessária, e isso não é motivo para vergonha — é, simplesmente, cuidado!
Vivemos uma era de hipervigilância. Notificações em celulares o tempo todo, prazos, comparações nas redes, notícias ruins do mundo todo o dia todo. Nosso sistema nervoso, desenhado para enfrentar ameaças pontuais e passageiras — como um predador na savana, foi colocado em uma rotina de ameaças contínuas. E o coração paga o preço.
Cuidar da ansiedade não é luxo, não é “coisa de quem tem tempo”. É prevenção cardiovascular. É, literalmente, cuidar do músculo que bate dentro do seu peito desde antes de você nascer e que vai bater, com fé e cuidado, por muitos anos ainda.
Talvez a pergunta certa, então, não seja “como está meu coração?”, mas “como estou eu, por inteiro?”. Porque a ansiedade, quando ignorada, não fica apenas na mente. Ela desce e fala com o coração, na linguagem que ele entende: a do ritmo, a da pressão, a da inflamação.
Ouvir isso a tempo pode salvar uma vida. A sua, inclusive.
Marcelo Luiz Martins
Médico Cardiologista e Intensivista
CRMPI – 2774
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