A planta jaborandi, nativa da Amazônia e adaptada ao semiárido de Parnaíba, no Piauí, abastece a indústria farmacêutica de mais de 80 países. O cultivo controlado garante a produção da pilocarpina, substância usada em medicamentos para tratamento do glaucoma. Atualmente o vegetal é exportado para mercados como Estados Unidos, Europa e Ásia.
👨🏻🔬O glaucoma é uma doença ocular que danifica o nervo óptico, geralmente devido ao aumento da pressão dentro do olho. Ele destrói fibras nervosas de forma silenciosa e irreversível, sendo uma das principais causas de cegueira no mundo.
O projeto, apoiado pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) em parceria com o Instituto Senai de Inovação em Química Verde, busca ampliar a produção do jaborandi e aumentar a concentração de pilocarpina extraída da planta.

A engenheira agrônoma da Centroflora, Letícia Silva, explicou que mecanismos de adaptação são empregados no plantio para o clima do semiárido piauiense. Segundo ela, é utilizada uma estufa com tela de sombreamento para reduzir a intensidade solar e criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento da planta.
“Pegar uma planta nativa e domesticada ela é muito difícil, leva muito tempo e dá muito trabalho. A gente já conseguiu fazer com que ela se desenvolva em nossa região. É motivo de orgulho”, contou a engenheira.
A pesquisa busca reproduzir, no cultivo controlado, as condições naturais que favorecem a produção do alcaloide. O objetivo é garantir regularidade no fornecimento da matéria-prima para a indústria farmacêutica, que depende de altos níveis de pureza.
A planta possui características específicas de cultivo e extração, que exigem manejo cuidadoso tanto em fazendas quanto em áreas nativas. Além da produção em Parnaíba, a cadeia produtiva também envolve extrativistas da região Norte, responsáveis pela coleta do jaborandi em ambientes naturais, seguindo práticas de manejo sustentável.
Segundo a farmacêutica e Luciene Vasconcelos, o processo precisa respeitar limites para não comprometer a planta e garantir a pureza do matéria prima.
“A gente pode colher no máximo 50 centímetros dela para não matar e para ela florar mais. Onde se corta, cria outros galhos. É importante também não haver quebra com a mão, não arrancar a planta”, ressaltou.

O coordenador do Instituto Senai de Inovação em Química Verde, Giovanni Pedroso, destacou que os teores de pilocarpina variam ao longo do tempo em função do clima e da estação chuvosa. Para ele, uma das chaves para aumentar a produtividade é observar atentamente todas as interações entre planta e solo, aspecto em que o Piauí tem se destacado.
“Parnaíba é o primeiro local que se está fazendo a produção em escala industrial, sem ônus pro meio ambiente. O jaborandi chega a ser ameaçado de extinção por conta da extração ilegal e incorreta das folhas. Parnaíba tem o case de sucesso, que é a produção sustentável”, afirmou o químico analítico.
Os pesquisadores ressaltam que a planta passa por um processo rigoroso até chegar à indústria farmacêutica. São exportadas cerca de 2 a 3 toneladas por ano de insumos produzidos em Parnaíba, com destino a países como Coreia, China, Japão, Estados Unidos e toda a Europa.
Córdia
Além do jaborandi, a córdia também tem ganhado destaque na região, já que o óleo e os ativos da planta vêm sendo utilizados em pomadas e géis para combate a dores musculares.
O projeto piauiense movimenta a indústria, aquece a pesquisa e gera empregos na região, reforçando a importância do aproveitamento sustentável de espécies nativas e a inserção do Brasil no mercado mundial da indústria farmacêutica.

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