
Por Camila Leite | Nutricionista Materno-Infantil
Segurança alimentar: um desafio para as famílias piauienses
A segurança alimentar é uma condição essencial para o crescimento e o desenvolvimento infantil. Ela significa ter acesso regular e permanente a alimentos em quantidade suficiente e com qualidade adequada, sem comprometer outras necessidades essenciais.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), analisados pela Secretaria do Planejamento do Piauí (Seplan), mostram que, em 2024, 60,7% dos domicílios piauienses estavam em situação de segurança alimentar, enquanto 39,3% apresentavam algum grau de insegurança alimentar.
O levantamento também identificou que a insegurança alimentar grave atingia 4% dos domicílios do estado naquele ano.
Esses números mostram que, apesar dos avanços registrados, uma parcela expressiva das famílias ainda enfrenta dificuldades para garantir uma alimentação adequada e regular. Essa realidade pode afetar diretamente as crianças, especialmente aquelas que vivem em contextos de maior vulnerabilidade social.
A dificuldade de acesso aos alimentos não deve ser confundida com falta de cuidado familiar. Para promover uma alimentação infantil adequada, é necessário considerar as condições reais de vida de cada família.
O consumo de ultraprocessados entre crianças do Piauí
A presença de alimentos ultraprocessados na rotina infantil é uma preocupação para a saúde pública.
Um estudo publicado em 2025, com base em registros do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), analisou o consumo desses produtos entre crianças de 5 a 9 anos acompanhadas no Piauí, no período de 2018 a 2021.
Os resultados apontaram uma frequência elevada de consumo de ultraprocessados entre as crianças registradas no sistema durante todo o período analisado.
Em 2019, por exemplo, foram identificados 3.135 registros de consumo desses alimentos entre 3.837 crianças acompanhadas. Em 2021, foram 2.946 registros de consumo entre 3.473 crianças.
É importante destacar que esses números se referem às crianças acompanhadas pelo SISVAN, e não representam necessariamente todas as crianças do Piauí. Além disso, os dados abrangem um período anterior e durante a pandemia de COVID-19.
O estudo reforça a importância do acompanhamento nutricional e de ações de educação alimentar voltadas à infância.
O papel da família na formação dos hábitos alimentares
A família exerce uma influência importante na construção das preferências alimentares das crianças.
Desde os primeiros anos de vida, os pequenos aprendem observando os adultos, participando das refeições e tendo contato com diferentes alimentos.
Quando os responsáveis incluem frutas, verduras, legumes, feijão e preparações caseiras na rotina, ampliam as oportunidades de contato da criança com uma alimentação variada.
No Piauí, alimentos tradicionais como cuscuz, arroz, feijão, macaxeira, abóbora, ovos e frutas regionais podem fazer parte de uma alimentação equilibrada, respeitando as necessidades nutricionais de cada faixa etária.
Não é necessário oferecer alimentos caros ou receitas elaboradas para promover uma alimentação saudável. O mais importante é valorizar os alimentos disponíveis, respeitar a cultura alimentar e buscar variedade dentro das possibilidades de cada família.
A rotina corrida e o consumo de alimentos ultraprocessados
A falta de tempo para preparar refeições, os horários irregulares e a praticidade dos produtos industrializados podem favorecer o consumo frequente de ultraprocessados.
Biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, refrigerantes, bebidas açucaradas e macarrão instantâneo são exemplos de produtos que merecem atenção quando passam a ocupar um espaço frequente na alimentação infantil.
O problema não está em responsabilizar individualmente os pais, mas em compreender como o ambiente alimentar influencia as escolhas cotidianas.
Por isso, incentivar o planejamento das refeições, valorizar preparações simples e estimular o consumo de alimentos in natura ou minimamente processados são medidas que podem contribuir para melhorar a qualidade da alimentação.
Crianças aprendem também pelo exemplo
O comportamento dos adultos durante as refeições pode influenciar a maneira como a criança se relaciona com a comida.
Quando os momentos à mesa são tranquilos, sem ameaças, comparações ou pressão para comer, a criança tem mais oportunidades de desenvolver autonomia e reconhecer seus sinais de fome e saciedade.
Observar a criança, respeitar seu ritmo e apresentar novos alimentos com paciência são atitudes importantes, especialmente quando há dificuldades alimentares ou seletividade.
A alimentação deve ser compreendida como uma experiência que envolve não apenas nutrientes, mas também emoções, sensações, convivência e aprendizado.
Escola e políticas públicas: uma responsabilidade compartilhada
A promoção da alimentação saudável na infância não depende exclusivamente da família.
A escola tem um papel importante na educação alimentar e nutricional, na oferta de refeições adequadas e no incentivo a hábitos saudáveis.
No Piauí, ações que valorizam alimentos regionais e a agricultura familiar podem contribuir para aproximar as crianças da cultura alimentar local.
Também é fundamental ampliar o acesso a alimentos de qualidade, fortalecer as políticas de segurança alimentar e garantir acompanhamento nutricional às crianças que necessitam de cuidados específicos.
A construção de hábitos saudáveis exige a participação conjunta das famílias, dos profissionais de saúde, das escolas e do poder público.
Pequenas atitudes que podem fazer diferença
Algumas medidas simples podem ajudar a melhorar a alimentação infantil no cotidiano das famílias piauienses:
- Valorizar alimentos tradicionais, como arroz, feijão, cuscuz, macaxeira, ovos e preparações caseiras.
- Incluir frutas regionais, como manga, caju, banana e goiaba, conforme a disponibilidade.
- Oferecer água ao longo do dia e evitar que bebidas açucaradas se tornem parte habitual da rotina.
- Reduzir a frequência de alimentos ultraprocessados e priorizar alimentos in natura ou minimamente processados.
- Organizar, sempre que possível, horários regulares para as refeições.
- Envolver a criança na escolha e no preparo dos alimentos, de acordo com sua idade.
- Evitar distrações e pressões durante as refeições, respeitando os sinais de fome e saciedade.
Essas orientações devem ser adaptadas à realidade de cada família, considerando a disponibilidade de alimentos, a rotina e as necessidades individuais da criança.
Cuidar da alimentação é investir no futuro
A alimentação infantil vai muito além da oferta de nutrientes. Ela envolve cultura, afeto, convivência, acesso aos alimentos e oportunidades de desenvolvimento.
No Piauí, fortalecer hábitos alimentares saudáveis significa também valorizar a cultura alimentar regional e reconhecer os desafios enfrentados pelas famílias para garantir uma alimentação adequada.
Mais do que buscar uma alimentação perfeita, é importante criar condições para que todas as crianças tenham acesso a alimentos de qualidade e possam desenvolver uma relação positiva com a comida.
Cuidar da alimentação na infância é investir na saúde de hoje e na qualidade de vida das próximas gerações.
Camila Maria Silva Leite.
Nutricionista Clínica e Materno Infantil
Mestranda em Alimentos e Nutrição – UFPI
CRN-11/15471
Referências
- PIAUÍ. Secretaria do Planejamento. Informe Socioeconômico nº 57 — Segurança Alimentar no Piauí em 2023 e 2024. Dados da PNAD Contínua/IBGE.
- Consumo alimentar de ultraprocessados em crianças no período pré e durante a pandemia: análise dos dados do SISVAN-WEB. Revista Foco, 2025. DOI: 10.54751/revistafoco.v18n5-118.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos. Brasília, 2019.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª edição. Brasília, 2014.
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