10 de outubro de 2026

Dia das Crianças: a memória afetiva do simples e a infância que permanece em nós

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Foto: Magnific / Reprodução

Entre brinquedos, brincadeiras e passeios, o que realmente marca a infância não é o valor dos presentes, mas a riqueza das experiências e dos afetos que permanecem na memória.

Quando pensamos no Dia das Crianças, quase sempre nos vêm à mente brinquedos, presentes, lojas movimentadas e a expectativa dos pequenos por algo novo. Mas, em meio a tantas possibilidades de consumo, existe uma pergunta que merece nossa reflexão: o que uma criança realmente levará consigo quando crescer?

Talvez ela não se lembre do preço daquele brinquedo tão desejado, mas certamente poderá guardar a lembrança de quem se sentou no chão para brincar com ela. Talvez esqueça o nome do restaurante ou o valor de um passeio, mas se recorde da alegria de correr livremente em um parque, de tomar um sorvete depois de uma tarde divertida ou de caminhar de mãos dadas com alguém que amava.

A infância é construída também por essas pequenas experiências, aparentemente comuns, mas emocionalmente significativas.

Brincar é muito mais do que passar o tempo

Na perspectiva da Psicopedagogia e do Neurodesenvolvimento Infantil, brincar é uma das formas mais importantes de aprendizagem. É por meio das brincadeiras que a criança explora o mundo, experimenta possibilidades, desenvolve a criatividade, exercita a atenção, aprende a lidar com frustrações e constrói relações sociais.

Uma simples brincadeira de esconde-esconde envolve atenção, planejamento e controle inibitório. Um jogo de tabuleiro favorece o raciocínio lógico, a flexibilidade cognitiva e a capacidade de esperar a própria vez. Construir castelos de areia, brincar de massinha ou desenhar no chão estimula habilidades motoras, sensoriais e imaginativas.

Até mesmo o faz de conta, tantas vezes considerado apenas uma diversão, representa um importante exercício de linguagem, simbolização, expressão emocional e compreensão das relações humanas.

A criança que brinca não está deixando de aprender. Ela está aprendendo enquanto vive a própria infância.

E talvez seja justamente essa a beleza do brincar: desenvolver habilidades sem transformar cada momento em uma obrigação ou cobrança por resultados.

Brinquedos caros não garantem memórias felizes

Vivemos em uma época em que os brinquedos se tornaram cada vez mais tecnológicos, sofisticados e, muitas vezes, caros. Entretanto, o desenvolvimento infantil não depende da quantidade de objetos disponíveis, tampouco do valor financeiro investido neles.

Uma caixa de papelão pode se transformar em foguete. Um lençol pode virar uma cabana. Panelinhas improvisadas podem dar vida a um restaurante imaginário. Folhas, pedras e gravetos podem se tornar tesouros de uma grande aventura.

Essas experiências favorecem a autonomia, a criatividade e a capacidade de encontrar diferentes soluções para um mesmo desafio.

Isso não significa que brinquedos industrializados ou tecnológicos sejam inadequados. Muitos oferecem excelentes oportunidades de aprendizagem. A questão está no equilíbrio e, principalmente, na qualidade das interações que acompanham seu uso.

Um brinquedo pode despertar interesse por alguns dias. Já uma experiência afetiva compartilhada pode permanecer na memória por muitos anos.

Passeios simples, lembranças extraordinárias

Ir ao parque, visitar uma praça, conhecer um museu, fazer um piquenique, andar de bicicleta, observar animais, visitar os avós ou simplesmente sair para contemplar a natureza são oportunidades valiosas de desenvolvimento infantil.

Os passeios ampliam o repertório de experiências da criança, favorecem a curiosidade, estimulam os sentidos e permitem que ela aprenda para além dos ambientes formais.

Mas existe algo ainda mais especial nessas vivências: a construção da memória afetiva.

O cheiro da pipoca, a sombra de uma árvore, o vento no rosto durante um passeio, o lanche preparado em casa, a gargalhada depois de uma brincadeira e a sensação de segurança ao estar perto de quem se ama podem se transformar em lembranças profundamente significativas.

A memória afetiva não depende de cenários extraordinários. Ela se constrói pela associação entre experiências, emoções, vínculos e sentidos.

Muitas vezes, aquilo que parece pequeno aos olhos de um adulto representa um universo inteiro para uma criança.

O maior presente é a presença

Na rotina acelerada das famílias, o tempo compartilhado tornou-se um recurso precioso. Entre compromissos profissionais, tarefas domésticas, responsabilidades escolares e telas, nem sempre conseguimos perceber o quanto as crianças desejam nossa disponibilidade emocional.

Estar presente não significa organizar passeios elaborados todos os finais de semana ou dedicar cada minuto exclusivamente aos filhos. Significa oferecer momentos genuínos de atenção, escuta e convivência.

É olhar nos olhos quando a criança conta uma descoberta. É participar de uma brincadeira, mesmo que por alguns minutos. É permitir que ela escolha um jogo, invente uma história ou mostre algo que construiu.

Também é compreender que nem toda experiência infantil precisa ser pedagógica, estruturada ou orientada por um adulto. A criança precisa de liberdade para explorar, imaginar, experimentar e, inclusive, lidar com momentos de tédio, que podem abrir espaço para novas ideias.

Precisamos oferecer às crianças não apenas oportunidades de desenvolvimento, mas também o direito de viver uma infância leve, espontânea e afetivamente segura.

A infância passa, mas o afeto permanece

O Dia das Crianças é uma oportunidade para celebrar, presentear e proporcionar alegria. Mas também pode ser um convite para refletirmos sobre o tipo de infância que estamos ajudando a construir.

Não precisamos transformar essa data em uma competição de presentes, viagens ou experiências grandiosas. Cada família, dentro de suas possibilidades, pode oferecer momentos verdadeiramente especiais.

Talvez o melhor presente seja uma manhã sem pressa, um bolo preparado juntos, uma tarde de brincadeiras antigas, uma visita à casa dos avós ou uma caminhada ao entardecer.

Porque, quando a infância se transforma em lembrança, nem sempre são os grandes acontecimentos que permanecem. Muitas vezes, são os pequenos rituais de amor que atravessam os anos.

E há algo profundamente bonito nisso: um dia, aquela criança crescerá. Os brinquedos serão guardados, as roupas deixarão de servir, os interesses mudarão e a vida seguirá seu curso.

Mas talvez, em algum momento da vida adulta, o cheiro de um bolo, o som de uma música ou a imagem de uma praça despertem novamente a sensação de ter sido amada, acolhida e feliz.

Que neste Dia das Crianças possamos oferecer menos pressa, menos cobranças e mais encontros. Menos preocupação em impressionar e mais disposição para compartilhar.

Porque a infância não precisa ser luxuosa para ser inesquecível.

Ela precisa ser vivida. E, sempre que possível, vivida com amor.

Nathanya Moraes
Psicopedagoga Clínica |
Orientadora Parental | Neuropsicopedagoga | Especialista em transtornos do neurodesenvolvimento | Neuroeducação Infantil


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