30 de outubro de 2026

Assoalho pélvico masculino: quando a musculatura também interfere na saúde sexual e urinária

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Foto: Magnific/Reprodução

Dor na região genital, dificuldade para urinar e alterações na ereção podem ter uma origem pouco conhecida pelos homens: o funcionamento inadequado dos músculos do assoalho pélvico. Quando um homem apresenta dor na região da próstata, desconforto durante a ejaculação ou dificuldade para manter uma ereção, é natural que a investigação se concentre inicialmente na próstata, nos hormônios ou na circulação sanguínea. Entretanto, existe uma estrutura frequentemente esquecida nessa avaliação: o assoalho pélvico. Embora o assunto seja mais conhecido entre as mulheres, especialmente durante a gravidez e após o parto, os homens também possuem um conjunto de músculos fundamentais para o funcionamento urinário, intestinal e sexual. E, assim como acontece com qualquer outro grupo muscular, alterações no seu funcionamento podem provocar sintomas importantes.

Muito além da próstata

O assoalho pélvico é formado por músculos e tecidos de sustentação localizados na parte inferior da pelve. Essas estruturas participam do controle da urina e das fezes e também desempenham funções relacionadas à ereção e à ejaculação. Para funcionar adequadamente, essa musculatura precisa ser capaz de contrair e relaxar de maneira coordenada. Em alguns homens, os músculos permanecem excessivamente contraídos, dificultando o relaxamento necessário para urinar e provocando desconforto ou dor. Em outros, existe deficiência de força ou de coordenação muscular, situação que pode contribuir para perdas urinárias.

Quais são os sintomas?

As manifestações podem ser bastante variadas e, por isso, nem sempre são imediatamente relacionadas a uma alteração muscular. Entre os sintomas mais comuns estão:

  • Dor persistente no períneo, região localizada entre o escroto e o ânus;
  • Desconforto nos testículos, pênis ou região inguinal;
  • Dificuldade para iniciar a micção ou sensação de esvaziamento incompleto da bexiga;
  • Urgência urinária e aumento da frequência das micções;
  • Dor durante ou após a ejaculação;
  • Alterações na função erétil;
  • Perdas involuntárias de urina.

Um exemplo importante é a síndrome da dor pélvica crônica masculina, frequentemente associada a sintomas atribuídos à próstata, mesmo quando não existe infecção bacteriana. Nesses pacientes, a presença de sensibilidade muscular, pontos dolorosos e dificuldade de relaxamento do assoalho pélvico pode contribuir para a persistência dos sintomas. Isso ajuda a explicar por que alguns homens passam por diferentes tratamentos, incluindo o uso repetido de antibióticos, sem obter melhora satisfatória.

Exercícios físicos podem prejudicar o assoalho pélvico?

A prática regular de atividade física é fundamental para a saúde cardiovascular, metabólica e sexual. Entretanto, determinadas modalidades podem, em situações específicas, contribuir para o aparecimento de sintomas pélvicos.

O ciclismo, por exemplo, pode provocar compressão prolongada da região perineal, especialmente quando existe inadequação do selim, da postura ou do volume de treinamento. Essa pressão pode afetar estruturas nervosas e vasculares envolvidas na sensibilidade genital e na função erétil. Exercícios de força realizados com aumento importante da pressão abdominal também podem agravar sintomas em indivíduos predispostos.

Não estamos falando que pedalar ou praticar musculação provoque necessariamente disfunção do assoalho pélvico. A maioria dos homens pode realizar essas atividades com segurança. O ponto fundamental é reconhecer sintomas persistentes e avaliar fatores individuais, como postura, intensidade dos exercícios, recuperação muscular e eventuais alterações preexistentes. Além da atividade física, constipação intestinal, hábitos urinários inadequados, cirurgias pélvicas e situações de estresse podem estar associados a alterações no funcionamento dessa musculatura.

Qual é a relação com a disfunção erétil?

A ereção depende de uma interação complexa entre circulação sanguínea, sistema nervoso, hormônios e fatores psicológicos, mas existe também um componente muscular. Os músculos isquiocavernosos e bulbospongiosos participam dos mecanismos de rigidez peniana e da ejaculação. Alterações na sua força, coordenação ou capacidade de relaxamento podem interferir nessas funções. É importante ressaltar que a disfunção erétil possui múltiplas causas e não deve ser atribuída automaticamente ao assoalho pélvico. Entretanto, quando a dificuldade de ereção aparece acompanhada de dor perineal, desconforto durante a ejaculação ou sintomas urinários, a avaliação dessa musculatura pode acrescentar informações relevantes ao diagnóstico. Em pacientes selecionados, a fisioterapia pélvica pode integrar o tratamento, associada às demais abordagens indicadas pelo urologista.

Fortalecer nem sempre é a solução

Existe uma ideia bastante difundida de que todos os problemas do assoalho pélvico podem ser resolvidos com exercícios de contração muscular, popularmente conhecidos como exercícios de Kegel. Na realidade, essa orientação não serve para todos. Quando existe fraqueza muscular, como em determinados casos de incontinência urinária após cirurgia de próstata, o treinamento supervisionado do assoalho pélvico pode trazer benefícios importantes. Por outro lado, em pacientes com musculatura excessivamente contraída e dolorosa, insistir em exercícios de fortalecimento pode intensificar o desconforto. Nessas situações, o tratamento pode priorizar técnicas de relaxamento, respiração diafragmática, terapia manual e recuperação da coordenação muscular. Portanto, antes de recomendar exercícios, é necessário identificar qual alteração está presente.

Uma nova perspectiva no tratamento da dor pélvica masculina

A compreensão das disfunções do assoalho pélvico tem avançado nos últimos anos.

As diretrizes da Associação Americana de Urologia (AUA), publicadas em 2025 para o manejo da dor pélvica crônica masculina, reforçam a importância de avaliar possíveis componentes musculoesqueléticos nesses pacientes.

A abordagem atual reconhece que a dor pélvica pode envolver diferentes mecanismos simultaneamente, incluindo alterações musculares, neurológicas, urinárias e fatores psicossociais. Por isso, o tratamento pode exigir uma atuação multidisciplinar, envolvendo urologistas, fisioterapeutas especializados e outros profissionais, conforme as necessidades de cada paciente. A fisioterapia do assoalho pélvico não substitui a investigação médica, mas pode representar uma ferramenta importante quando existe participação muscular nos sintomas.

O homem precisa conhecer melhor o próprio corpo

Durante muito tempo, a saúde masculina foi discutida quase exclusivamente a partir da próstata, da testosterona e da função erétil. Esses temas continuam sendo fundamentais, mas não representam toda a complexidade do organismo masculino. O assoalho pélvico participa de funções essenciais para a qualidade de vida e merece atenção, especialmente quando surgem sintomas urinários, sexuais ou dolorosos sem uma causa evidente.

Na saúde masculina, compreender a origem do problema é sempre o primeiro passo para tratá-lo adequadamente.

Dr. Giuliano Aita
Médico urologista e andrologista. Mestre e Doutor em Ciências pelo A.C. Camargo Cancer Center. Membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).


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