
Existe uma cena que se repete no meu consultório há anos. O paciente entra, senta, e a primeira frase não é sobre ele.
“Foi minha esposa que marcou.”
Às vezes é a filha. Às vezes, a mãe. Ele não veio porque decidiu cuidar da saúde. Veio porque alguém insistiu.
No Novembro Azul do ano passado, escrevi aqui que a campanha precisava ir além da próstata. Continuo pensando assim. Mas existe uma pergunta anterior, e talvez mais incômoda: se já sabemos o que precisa ser examinado, por que o homem continua chegando tarde?
O problema não é falta de exame
A medicina avançou muito, e o rastreamento do câncer de próstata é um bom exemplo disso.
As diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU), uma das principais referências da especialidade no mundo, propõem uma estratégia baseada no risco de cada homem. O ponto de partida é o PSA: a partir dos 50 anos para a maioria, dos 45 para quem tem histórico familiar ou é negro, e dos 40 para portadores de mutações genéticas como a do BRCA2, como detalhei aqui em abril. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Urologia segue uma linha semelhante.
Quando o PSA vem alterado, a ressonância magnética entra antes da biópsia e ajuda a identificar quem realmente precisa do procedimento. Calculadoras de risco e novos marcadores refinam ainda mais essa decisão.
Existe também o momento de parar. Para homens com expectativa de vida inferior a dez anos, o rastreamento tende a trazer mais riscos que benefícios.
Tudo isso depende de uma conversa franca. Antes do exame, o homem precisa saber que ele pode gerar falsos positivos, biópsias desnecessárias e o tratamento de tumores que nunca causariam problemas.
E o toque retal?
Ele não deixou de existir, mas mudou de lugar. Sozinho, o toque não é um bom exame de rastreamento. Deixa passar tumores pequenos e depende muito da experiência de quem examina. Por isso, as diretrizes não o recomendam como estratégia isolada.
Na avaliação urológica, porém, ele continua tendo valor. Ajuda a estimar o volume da próstata, identifica nódulos e pode chamar a atenção para alguns tumores que não alteram o PSA. É uma mudança importante em relação ao que se defendia há poucos anos, e mostra como as diretrizes evoluem com as evidências. O toque é um complemento, não a porta de entrada. Por isso mesmo, o medo do exame não deveria afastar ninguém do consultório.
As ferramentas existem. Falta chegar até elas
O homem brasileiro vive, em média, quase sete anos menos que a mulher. Essa diferença não se explica só pelo câncer. Ela vem do infarto que chegou sem aviso, da pressão alta que nunca foi medida, do diabetes descoberto tarde, dos acidentes, da violência e do suicídio.
Levantamentos da Sociedade Brasileira de Urologia mostram que quase metade dos homens só procura o médico quando já sente alguma coisa. Ou seja, quando a doença já teve tempo de avançar.
O fenômeno não é só brasileiro. Nos Estados Unidos, um relatório recente concluiu que os homens estão morrendo cedo demais e com frequência demais. No Reino Unido, o tema já é tratado como uma “crise silenciosa”.
Por que adiamos?
Há muitas respostas, e nenhuma é simples.
Muitos homens cresceram ouvindo que reclamar é fraqueza. Que dor se aguenta. Que médico é para quando “não tem mais jeito”. Outros têm medo do diagnóstico e preferem não saber. E há quem simplesmente nunca tenha criado o hábito, porque ninguém criou com ele.
O resultado é previsível. O cuidado depende de um empurrão externo. E quando esse empurrão não existe, a consulta não acontece.
A solidão também adoece
Esse é um tema que aparece cada vez mais nos estudos sobre saúde masculina.
Homens tendem a ter menos amigos próximos, falam menos sobre o que sentem e pedem menos ajuda. Pesquisadores já comparam o impacto do isolamento sobre a saúde ao do cigarro e da obesidade.
Faz sentido. O homem que não tem com quem conversar costuma ser também aquele que ninguém leva ao consultório.
Ansiedade, depressão e excesso de álcool fazem parte da saúde do homem e merecem a mesma atenção que a próstata.
A ereção avisa antes
Se existe um sintoma capaz de levar o homem ao médico, é a dificuldade de ereção. E aqui mora uma oportunidade que quase sempre se perde.
Boa parte dos homens resolve o problema sozinha, na farmácia. O comprimido funciona, a vida segue e ninguém pergunta por que aquilo começou.
Só que a ereção é, antes de tudo, um fenômeno vascular. Ela depende de artérias saudáveis e de um bom fluxo de sangue. As artérias do pênis são mais finas que as do coração e costumam dar sinais antes.
Por isso, a disfunção erétil pode ser um dos primeiros avisos de doença cardiovascular, às vezes anos antes de um infarto. Também pode revelar diabetes, alterações hormonais, efeitos de medicamentos, ansiedade ou depressão.
Hoje temos bons tratamentos, dos medicamentos orais a opções como as ondas de choque de baixa intensidade, sobre as quais já escrevi aqui. Mas tratar o sintoma sem investigar a causa é perder uma oportunidade preciosa de prevenção.
Na consulta, a pergunta que faço não é só “funciona ou não funciona”. É desde quando, em que situações e o que mais mudou na vida desse homem.
Atalhos não são cuidado
Enquanto muitos fogem do consultório, outros buscam soluções rápidas. Testosterona sem indicação, listas de suplementos, procedimentos prometidos pelas redes sociais.
O ponto em comum entre o homem que nunca vai ao médico e o que procura uma solução milagrosa é o mesmo: a dificuldade de enxergar a saúde como um processo, e não como um produto.
O que muda na prática
Não é preciso uma revolução. Medir a pressão, avaliar glicose e colesterol, dormir bem, se movimentar, moderar o álcool, manter vínculos e ter um médico de referência, que acompanhe a sua história, e não apenas os seus exames.
Antes de se perguntar se está “em dia” com a campanha, vale fazer outras perguntas:
- Quando foi a última vez que você procurou um médico sem estar sentindo nada?
- Você sabe como estão sua pressão, sua glicose e seu colesterol hoje?
- Se algo não estivesse bem, você teria com quem conversar?
O exame mais importante talvez não esteja em nenhuma campanha.
É o homem marcar a própria consulta, sem esperar que a dor ou alguém da família faça isso por ele.
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