14 de março de 2026

Resistência: dia da Consciência Negra traz o racismo estrutural e religioso para debate

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Zumbi dos Palmares – Autoria Desconhecida

Carlienne Carpaso
carliene@tvclube.com.br

Zumbi dos Palmares foi semente, plantou a resistência. Morreu no dia 20 de novembro de 1695; hoje celebrado em todo o Brasil como o Dia da Consciência Negra.  Esse dia aponta para a longa luta antirracista no país; uma luta que teve início há mais de 400 anos, na época da escravidão, e que se mantém viva: sobram preconceitos, faltam oportunidades; sobram ataques, faltam atos de respeito aos povos negros.

Ser NEGRO, sem estar na mira do olhar armado do racismo. Hoje é mais um dia de luta para os que buscam superar a fome, o desemprego e o preconceito por causa do tom da pele.

Marcos Vinicius Ferreira, coordenador cultural de comunidade quilombola e membro da Rede Nacional Afroambiental, lamenta que em pleno século XXI a comunidade negra viva a ausência dos direitos humanos, que são os direitos básicos de todos os seres humanos. São direitos civis, políticos; econômicos, sociais e culturais negados.

As comunidades negras todos os dias enfrentam o racismo institucional, estrutural e religioso.  “Muita coisa avançou, mas ainda estamos fora dos cargos de comando, das universidades. Por que se precisa falar em Consciência Negra? É preciso por causa do racismo, da intolerância religiosa, de pessoas brancas que insistem em tratar o negro como na época da escravidão. É preciso porque algumas pessoas se sentem no direito de invadir os nossos terreiros, os nossos assentamentos e quebrar os nossos santos. É preciso falar de Consciência Negra porque nos olham e criticam as nossas guias”, fala Marcos sobre o cotidiano.

Marcos Vinicius Ferreira. (Foto: Carlienne Carpaso/ portal ClubeNews)

Zumbi dos Palmares
Sobre o Dia da Consciência Negra, o pesquisador Ribamar Batista, membro da Academia de Letras de Teresina, explica que o “20 de Novembro” – Dia da Consciência Negra – é uma homenagem ao Quilombo de Palmares, que ficava localizado entre os estados de Alagoas e Pernambuco. Ele era liderado por um herói da resistência negra: Zumbi dos Palmares.

Durante quase 400 anos de história do Brasil, a população negra estava sujeita à escravidão.  A data foi escolhida por coincidir com o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695.  Zumbi foi morto em uma emboscada. Sua cabeça foi exposta em praça pública para amedrontar as pessoas escravizadas que desejassem escapar.

A data foi oficializada somente em 2011, mas o dia da morte de Zumbi é rememorada pelo movimento negro desde a década de 1970.

Foto: Carlienne Carpaso

Mulher negra, mulher do axé, mulher periférica
Sacerdotisa da Casa de Umbanda São Jerônimo, Joelfa de Xangô, se apresenta como “mulher negra, mulher do axé, mulher periférica”. Ao falar da Consciência Negra, ela busca aos conhecidos da sua ancestralidade e no cotidiano da “diáspora em que vivemos”, diz.

Joelfa de Xângo, que é do quilombo do pai Zé Pretinho, na zona Sudeste de Teresina, conta que a pandemia da Covid-19 e o Governo Federal, o qual denomina “desgoverno”, pioraram a realidade de muitas famílias negras. Ela fala do hábito de muitas mães negras que acendem velas pedindo proteção aos filhos e maridos para que retornem vivos já que a “bala perdida” quase sempre acha um corpo negro.

“Hoje parece que estamos regredindo aos tempos da escravidão. O povo preto, principalmente a juventude, está sendo exterminada. A bala é encontrada, não é uma bala perdida. Estamos vivendo sitiados, não sabemos qual será o nosso próximo passo. Sempre somos suspeitos [de algum crime]. O desgoverno, o desemprego e a pandemia-19 entraram com a fome nas nossas casas”.

Mãe Joelfa de Xangô. (Foto: Carlienne Carpaso/ portal ClubeNews)

Para sobreviver, as comunidades negras se mobilizaram para arrecadar e doar cestas básicas, já que muitos passaram a sofrer ainda mais com a falta de mantimentos devido a pandemia da Covid-19. “Foram vários corres para conseguir amenizar a fome do nosso povo. Uma cesta básica virava duas porque era melhor o pouco do que o nada”.

“Nós, dentro dos terreiros, resistimos. Quando a oportunidade não chega, nós, povo preto, criamos a nossa cartilha de sobrevivência por meio dos ensinamentos dos nossos ancestrais, dos nosso pretos-velhos, caboclos”, diz Joelfa.

Resistência
O Piauí possui quase sete mil terreiros, desses 800 estão em Teresina, segundo o Pai Rondinele de Oxun, do movimento de Terreiros do Estado do Piauí e membro da Articulação Nacional de Povos de Matriz Africana e Ameríndia. “Teresina é a quarta capital que mais violenta as comunidades tradicionais de matriz africana. A grande maioria dessas comunidades é de população negra, população da periferia. Nós enfrentamos, além do racismo institucional, o racismo religioso”.

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre as desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil, com dados das grandes regiões e das unidades da Federação, são de 2019. Os principais dados obtidos na análise no que se refere ao Piauí foram:

  • 80% da população piauiense é preta ou parda;
  • No Piauí, pessoas de cor ou raça preta ou parda recebem aproximadamente 62% do que é pago às pessoas brancas;
  • No Piauí, a situação de pobreza é maior entre as pessoas de cor ou raça preta ou parda;
  • Pessoas de cor ou raça preta ou parda têm menos acesso a celular e à internet no Piauí;
  • Piauí tem a quinta maior proporção de deputados estaduais pretos ou pardos do país;
  • Maioria dos prefeitos e dos vereadores eleitos no Piauí em 2016 são pretos ou pardos;

 

Antônia Aguiar. (Foto: Carlienne Carpaso)

 O preconceito vivido na pele também ataca os cabelos.  A especialista em Trança Afro, Chiquinha Aguiar, relembra  muitas mulheres que superaram o próprio preconceito rompendo o olhar do outro sobre elas. “As mulheres negras começaram a olhar para si e começaram a se libertar. A gente sabe que o processo de alisar o cabelo é muito decorrente do sistema de uma sociedade preconceituosa sobre nós. Não é moda. É nossa história. Nossa identidade”.

Marcha de resistência
Antônia Aguiar, coordenadora do Memorial Esperança Garcia, lembra que no dia 18, na programação Novembro Negro, representantes das comunidades negras e de matriz africana marcharam em “Resistência pela Vida”. O protesto saiu em caminhada da Avenida Frei Serafim até a sede do Memorial, na avenida Miguel Rosa, no Centro de Teresina.

“Muitas pessoas negras morreram por causa da Covid-19 porque as famílias não tinham acesso à saúde e às condições adequadas de prevenção.  A marcha também aconteceu em sinal de resistência às pessoas negras que são assassinadas – ‘confundidas’ por causa da cor, como muitos dizem. Marchamos pelos que perderam a vida por causa desse preconceito que existe no país”.

“O 20 de Novembro é uma data muito simbólica para nós porque Zumbi morreu. Ele deixou todo esse legado para a população negra. Deixou todo esse legado para nós. Ele lutou até a morte. Hoje a gente sabe que a luta continua, não é só em novembro. Nós lutamos o ano todo, a cada dia, a cada hora e a cada minuto por nossas vidas negras”.

Marcha de Resistência pela Vida em Teresina pela programação Novembro Negro (Foto: Carlienne Carpaso)

 

 

 


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