
Durante muito tempo, mulheres com deficiência foram ensinadas a sobreviver em silêncio. Invisíveis para o mercado, desacreditadas pela sociedade e limitadas não pela deficiência, mas pela falta de oportunidades. Mas algumas decidiram transformar a falta de inclusão em movimento.
Raquel Nascimento, de 29 anos, é uma delas.
Cadeirante desde o nascimento, ela encontrou no empreendedorismo mais do que uma fonte de renda. Encontrou autonomia, pertencimento e voz. “Precisava mostrar que era capaz”, resume.
E mostrou.
Entre olhares preconceituosos, dúvidas sobre sua capacidade profissional e barreiras que ainda insistem em existir, Raquel escolheu não parar. Ela conta que muitas empresas ainda enxergam primeiro a deficiência, praticam capacitismo e só depois conseguem enxergar o talento, a experiência e o potencial de uma pessoa com deficiência.
“Existe preconceito, sim. Mas a melhor forma de quebrar isso é mostrando competência e resultados.”

Hoje, atuando como social media e designer, ela transformou o empreendedorismo em ferramenta de liberdade. “O empreendedorismo me deu independência, confiança e a chance de construir meu próprio caminho.”
A história de Raquel reflete a realidade de milhares de mulheres que empreendem porque o mercado formal ainda fecha portas.
Segundo dados do Sebrae, as mulheres representam 37,8% dos pequenos negócios no Piauí e possuem papel fundamental no desenvolvimento econômico do estado.
Mas, para muitas mulheres com deficiência, empreender não nasce de uma oportunidade. Nasce da falta de inclusão.

A pesquisa “Radar da Inclusão 2025”, realizada pela Talento Incluir e pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil, revela que 54% das pessoas empreendedoras com deficiência e/ou neurodivergentes recorreram ao empreendedorismo após perderem empregos ou enfrentarem barreiras nas empresas em que trabalhavam. E 62% afirmam que prefeririam continuar atuando como funcionárias.
Os números revelam uma realidade dura: muitas pessoas com deficiência não deixam o mercado formal porque querem. Elas são empurradas para fora dele. Mesmo assim, mulheres como Raquel seguem trilhando novos caminhos e abrindo suas próprias portas.
Aos 59 anos, Franci Mary Avelino também conhece bem os desafios impostos pelo preconceito. Ela teve poliomielite aos três meses de vida, possui limitações motoras, mas nunca permitiu que um diagnóstico limitasse sua trajetória.

Há 25 anos, trabalha no Sebrae, atuando nas áreas de atendimento ao MEI, (Microempreendedor individual)
triagem, abertura de empresas e alteração de CNAE –
Classificação Nacional de Atividades Econômicas.
Mas sua trajetória vai muito além da rotina profissional.
Empreendedora apaixonada pelo crochê, Franci transforma linhas em criatividade. Produz biquínis, maiôs, vestidos e peças artesanais carregadas de identidade própria.
Ela nunca parou de estudar. Nunca deixou de evoluir.
Faz curso de Libras, possui pós-graduação em Gestão do Relacionamento com o Cliente e acredita que conhecimento também é ferramenta de autonomia.
Franci conta que o preconceito ainda existe e que muitas pessoas continuam olhando para pessoas com deficiência com sentimento de pena.
“Alguns ainda nos enxergam como coitadinhos. Mas somos totalmente capazes.”
No Sebrae, ela afirma ter encontrado apoio, inclusão e acessibilidade. A empresa oferece ações como ginástica laboral, acupuntura e iniciativas voltadas ao bem-estar e à inclusão dos colaboradores.
Para ela, capacidade quase sempre está ligada à oportunidade.
“As pessoas e as empresas precisam gerar chances. Muitas vezes, tudo o que alguém precisa é que acreditem nela.”
E talvez o maior erro da sociedade ainda seja chamar tudo isso apenas de superação. Porque existe algo maior aqui: protagonismo.
Quando uma mulher com deficiência empreende, trabalha, estuda e ocupa espaços, ela não vende apenas um produto ou oferece apenas um serviço. Ela rompe estigmas, desafia barreiras históricas e mostra que inclusão não pode existir apenas no discurso.
“Quando existem oportunidades, acessibilidade e respeito, mostramos do que somos capazes.”
Raquel não quer ser admirada apenas por estar em uma cadeira de rodas. Franci também não quer ser definida por uma limitação física. Ambas querem ser reconhecidas pela competência, coragem e capacidade de transformar a própria história.
E isso já deveria ser suficiente.
Histórias como as de Raquel e Franci Mary nos ensinam que inclusão também é reflexão, oportunidade e mudança de olhar. Porque muitas das limitações que ainda existem não estão no corpo de quem possui uma deficiência física, mas nas barreiras atitudinais criadas por uma sociedade que ainda precisa aprender a ser inclusiva em vez de exclusiva.

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