15 de junho de 2026

Uma revolução incômoda: a Fifa e o veto ao uniforme da seleção do Haiti

Uma imagem alusiva à referida batalha passou a estampar a camisa da seleção haitiana em abril deste ano.

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Foto: @fhfhaiti

Em 18 de novembro de 2025, o Haiti conquistou uma vaga para a Copa do Mundo depois de 52 anos fora do maior torneio de futebol do planeta. Por uma dessas coincidências, que mais parece obra de roteiro de cinema, a classificação ocorreu no mesmo dia em que o país caribenho comemorou o aniversário de 223 anos da Batalha de Vertières. Uma imagem alusiva à referida batalha passou a estampar a camisa da seleção haitiana em abril deste ano.

Às vésperas do início da Copa, a FIFA declarou que a imagem continha uma “mensagem política”, exigindo sua retirada como condição para que o país participasse da competição. Para compreender melhor este episódio, devemos rememorar a Revolução Haitiana, um dos principais acontecimentos da história latino-americana.

 Conhecida como a “Pérola do Caribe”, a colônia francesa de São Domingos chegou a ser a maior produtora mundial de açúcar no século XVIII. Todavia, sua riqueza foi construída a partir da brutal exploração dos negros escravizados deslocados para esta parte da ilha caribenha. Entre 1789 e 1791, os franceses derrubaram a Bastilha, proclamaram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e elaboraram sua primeira Constituição, entretanto, não escreveram uma só linha sobre a abolição da escravidão em suas colônias.

Coube aos próprios escravizados de São Domingos tomarem seu destino em suas mãos, concretizando na ilha os ideais que a Revolução Francesa ecoou. Entre 1791 e 1804, os negros escravizados da ilha pegaram em armas e derrotaram sucessivamente os colonizadores, conquistando sua liberdade e a independência do país que passou a se chamar Haiti.

O ponto alto desta revolução negra foi justamente a Batalha de Vertières, em que, mesmo em desvantagem numérica, as tropas haitianas atacaram e tomaram o Forte Vertières, derrotando as tropas enviadas por Napoleão Bonaparte, forçando a rendição francesa e abrindo caminho para consolidação da independência, declarada oficialmente em 1º de janeiro de 1804. A camisa oficial da seleção haitiana, produzida pela empresa colombiana Saeta, reproduziu a silhueta dos heróis desta batalha empunhando a bandeira branca e vermelha, um dos primeiros símbolo da Revolução Haitiana.

Enquanto a Federação Haitiana de Futebol foi compelida a retirar a homenagem a Batalha de Vertières da camiseta oficial de sua seleção para participar da Copa do Mundo, o governo dos EUA deportou o árbitro somali Abdulkadir Artan, impediu a seleção iraniana de passar a noite ou se hospedar em seu território e submeteu o jogador iraquiano Ali Al-Hamadi a um interrogatório de sete horas no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago. Tudo isso ocorreu com o beneplácito da FIFA, que vem recebendo críticas de organizações de defesa dos direitos humanos por sua conivência com as arbitrariedades da administração Trump.

Ao exigir a retirada da imagem que alude a Batalha de Vertières do uniforme da seleção haitiana, a FIFA demonstrou para o mundo uma profunda ausência de respeito diante da história de uma das maiores conquistas da humanidade, a primeira abolição da escravidão nas Américas. Ainda mais estranho foi qualificar a ilustração como “mensagem política”, procedimento sobremaneira conveniente para censurar tudo aquilo que não esteja alinhado com os interesses desta entidade.

Mas a questão de fundo é por que a FIFA não reconheceu o tributo da Federação Haitiana de Futebol a um acontecimento que exalta a luta de pessoas negras por liberdade? Em outras palavras, em que medida este posicionamento da entidade expressaria uma atitude que fortalece uma cultura racista naquele que deveria ser um dos maiores palcos da união e solidariedade entre os povos do planeta?


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