
Por Camila Leite | Nutricionista Materno Infantil
A infância é uma fase marcada por descobertas, desenvolvimento e transformações importantes no organismo. Entre os 2 e os 5 anos, período conhecido como fase pré-escolar, a alimentação exerce um papel fundamental na formação dos ossos, no desenvolvimento muscular e na manutenção de funções essenciais para a saúde. Nesse contexto, dois nutrientes merecem atenção especial: a proteína e o cálcio.
Embora sejam frequentemente associados ao crescimento infantil, esses nutrientes desempenham funções diferentes e complementares. Enquanto a proteína participa da construção e da reparação dos tecidos, o cálcio é indispensável para a formação e a manutenção dos ossos e dos dentes, além de contribuir para a contração muscular e a transmissão dos impulsos nervosos.
Mais do que oferecer grandes quantidades de alimentos ricos nesses nutrientes, o desafio está em garantir uma alimentação variada, equilibrada e adequada às necessidades individuais de cada criança.
Proteína: muito além do crescimento muscular
As proteínas são formadas por aminoácidos que participam da construção de músculos, pele, órgãos, enzimas e outros componentes do organismo. Na infância, quando o corpo está em constante desenvolvimento, o consumo adequado desse nutriente é essencial para sustentar o crescimento e a renovação dos tecidos.
Entre as fontes alimentares de proteína estão carnes, peixes, ovos, leite e derivados, além de feijão, lentilha, grão-de-bico e outras leguminosas. A combinação de alimentos de diferentes grupos contribui para a oferta de aminoácidos e de outros nutrientes importantes.
Na alimentação brasileira, preparações tradicionais como arroz com feijão, acompanhadas de ovo, frango, peixe ou carne, podem fazer parte de refeições nutritivas e acessíveis. Não é necessário recorrer a produtos especiais ou suplementos proteicos para atender às necessidades da maioria das crianças saudáveis.
Um ponto importante é que consumir proteína em excesso não significa crescer mais ou melhor. A quantidade necessária varia conforme a idade, o peso, o estado nutricional e as condições de saúde. Por isso, a prioridade deve ser uma alimentação suficiente e diversificada, sem exageros nem restrições desnecessárias.
Cálcio: a base para ossos e dentes saudáveis
O cálcio é um mineral essencial para a mineralização óssea, especialmente durante a infância, quando ocorre a formação da estrutura que dará sustentação ao corpo ao longo da vida. Também participa de funções como a coagulação sanguínea, a contração muscular e o funcionamento do sistema nervoso.
Leite, iogurte natural e queijos são fontes conhecidas de cálcio. Entretanto, a alimentação infantil não precisa se limitar aos laticínios. Alguns vegetais, como couve e brócolis, e alimentos fortificados podem contribuir para a ingestão do mineral, embora a quantidade de cálcio e sua absorção variem entre as fontes.
A vitamina D também merece atenção, pois participa da absorção e do aproveitamento do cálcio pelo organismo. Quando há suspeita de deficiência ou necessidade de suplementação, a avaliação deve ser individualizada por um profissional de saúde.
É importante lembrar que o consumo excessivo de leite pode reduzir o apetite para outros alimentos e dificultar a variedade alimentar. A criança precisa de uma alimentação que forneça não apenas cálcio e proteína, mas também ferro, zinco, fibras, vitaminas e outros nutrientes necessários ao desenvolvimento.
O equilíbrio entre proteína e cálcio faz a diferença
Proteína e cálcio não atuam isoladamente. O crescimento saudável depende da combinação de diferentes nutrientes, de uma ingestão energética adequada, de atividade física compatível com a idade, de sono suficiente e do acompanhamento regular do desenvolvimento infantil.
Uma criança que consome muito leite, por exemplo, pode apresentar uma alimentação pouco diversificada se a bebida substituir refeições ou reduzir o interesse por alimentos ricos em ferro. Da mesma forma, uma dieta com excesso de carnes e poucos vegetais, frutas, feijões e outros alimentos variados não representa, necessariamente, uma alimentação equilibrada.
A proposta é distribuir os alimentos ao longo do dia, respeitando a fome, a saciedade e a rotina da criança. Café da manhã, almoço, jantar e lanches planejados podem incluir diferentes fontes de nutrientes sem transformar a alimentação em uma contagem rígida de gramas ou calorias.
Como colocar isso em prática no dia a dia?
Uma alimentação equilibrada pode ser construída com alimentos comuns, respeitando os hábitos culturais e a realidade de cada família. Algumas possibilidades incluem:
Café da manhã
- Cuscuz com ovo e leite, conforme a aceitação da criança.
Almoço
- Arroz, feijão, frango ou peixe, legumes e verduras.
Lanche
- Fruta acompanhada de iogurte natural ou outra opção adequada à rotina.
Jantar
- Uma refeição semelhante ao almoço, com variação dos ingredientes e das preparações.
Esses exemplos não constituem um cardápio individualizado. As porções e a frequência dos alimentos devem considerar a idade, o apetite, o crescimento e as necessidades específicas de cada criança.
Também é importante evitar que alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas e produtos com excesso de açúcar ocupem o lugar das refeições principais. Envolver a criança na escolha de frutas, na organização da mesa e no preparo de receitas simples pode favorecer a curiosidade e a construção de hábitos alimentares saudáveis.
Quando a seletividade alimentar exige atenção?
Na fase pré-escolar, é comum que a criança demonstre preferências, recuse alguns alimentos ou precise de diferentes oportunidades para aceitar novos sabores e texturas. No entanto, quando a variedade alimentar é muito restrita, há exclusão persistente de grupos alimentares ou a criança apresenta dificuldades importantes para comer, é necessário investigar a situação.
A seletividade alimentar pode comprometer a ingestão de proteína, cálcio, ferro e outros nutrientes, dependendo dos alimentos aceitos. Crianças com alergias alimentares, restrições dietéticas, alterações sensoriais ou condições do neurodesenvolvimento também podem precisar de acompanhamento individualizado.
Nesses casos, o cuidado deve envolver a família e, quando indicado, uma equipe multiprofissional. Pressionar, punir ou obrigar a criança a comer pode aumentar o desconforto durante as refeições. Uma abordagem acolhedora, com exposição gradual aos alimentos e respeito aos sinais de fome e saciedade, contribui para uma relação mais positiva com a comida.
Crescer bem é resultado de um cuidado contínuo
O crescimento infantil não depende de um único nutriente ou alimento considerado milagroso. Ele é resultado de um conjunto de fatores que inclui alimentação adequada, condições de saúde, sono, ambiente familiar e acompanhamento do desenvolvimento.
Garantir fontes variadas de proteína e cálcio é uma parte importante desse cuidado, mas o equilíbrio nutricional precisa ser observado como um todo. Consultas regulares com o pediatra e, quando necessário, com o nutricionista permitem acompanhar as curvas de crescimento, identificar possíveis inadequações alimentares e orientar mudanças de maneira segura.
Na infância, alimentar também é educar, acolher e criar oportunidades para descobrir novos sabores. Mais do que preencher o prato com nutrientes, é fundamental construir uma rotina alimentar que favoreça o desenvolvimento, respeite a individualidade da criança e fortaleça hábitos saudáveis para toda a vida.
Camila Leite
Nutricionista Clínica e Materno Infantil
Especialista em Seletividade Alimentar no Autismo e TDHA ( Faculdade plena
Mestranda em Alimentos e Nutrição – UFPI
CRN-11/15471
Referências bibliográficas
1. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2019. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/promocao-da-saude/guias-alimentares/publicacoes/guia_da_crianca_2019.pdf
2. BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes e recomendações do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos: documento de evidências. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_recomendacoes_guia_alimentar_criancas.pdf
3. NATIONAL INSTITUTES OF HEALTH (NIH). Office of Dietary Supplements. Calcium: Fact Sheet for Health Professionals. Disponível em: https://ods.od.nih.gov/factsheets/Calcium-HealthProfessional/
4. NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING, AND MEDICINE. Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D. Washington, DC: The National Academies Press, 2011. Disponível em: https://www.nationalacademies.org/read/13050/chapter/24
5. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Nutrologia. Manuais e Guias de Nutrologia Pediátrica. Disponível em: https://www.sbp.com.br/departamentos/nutrologia/manuais/
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