2 de novembro de 2026

Menos telas, mais infância: o impacto da tecnologia no desenvolvimento infantil

A infância representa uma etapa fundamental para o amadurecimento cerebral, emocional, social e cognitivo.

Compartilhe:

Foto: Pixabay/Divulgação

Em uma sociedade cada vez mais conectada, celulares, tablets e outros dispositivos digitais passaram a ocupar um espaço significativo na rotina das crianças. Embora a tecnologia ofereça possibilidades de aprendizagem e entretenimento, seu uso excessivo tem despertado preocupações entre profissionais da saúde e da educação.

A infância representa uma etapa fundamental para o amadurecimento cerebral, emocional, social e cognitivo. É nesse período que se desenvolvem habilidades como atenção, memória, linguagem, criatividade, raciocínio lógico e autorregulação emocional.

Essas competências são construídas principalmente por meio das experiências cotidianas, das brincadeiras, da interação com outras pessoas e da exploração do ambiente.

O que acontece quando as telas substituem as brincadeiras?

Na perspectiva psicopedagógica, aprender não significa apenas adquirir conhecimentos escolares. A aprendizagem envolve processos cognitivos, emocionais, motores e sociais que precisam ser estimulados continuamente.

Quando a criança permanece longos períodos diante de dispositivos eletrônicos, atividades fundamentais podem perder espaço, como brincar livremente, desenhar, praticar esportes, ouvir histórias e interagir com outras crianças.

A Sociedade Brasileira de Pediatria, em seu manual Menos Telas, Mais Saúde, atualizado em 2024, alerta para riscos associados ao uso excessivo e inadequado das tecnologias, incluindo dificuldades relacionadas ao sono, à aprendizagem e ao comportamento.

É importante compreender, entretanto, que essas dificuldades não podem ser atribuídas exclusivamente às telas. O desenvolvimento infantil depende de diversos fatores, e cada criança apresenta necessidades e características próprias.

A tolerância à frustração também precisa ser desenvolvida

Um aspecto que merece atenção é a oferta constante de estímulos e recompensas imediatas no ambiente digital.

Com poucos movimentos, a criança pode mudar de vídeo, escolher outro jogo ou encontrar uma nova distração. Entretanto, a vida cotidiana exige habilidades que nem sempre são exercitadas nessas experiências.

Esperar a sua vez, aceitar perder uma brincadeira, concluir uma tarefa desafiadora e lidar com pequenas frustrações são situações importantes para o desenvolvimento das funções executivas.

Essas habilidades estão diretamente relacionadas ao controle inibitório, à flexibilidade cognitiva, ao planejamento e à capacidade de regular emoções e comportamentos.

Quando o celular se torna a principal estratégia utilizada para acalmar a criança diante de qualquer desconforto, oportunidades de aprendizagem emocional podem ser reduzidas.

Afinal, quanto tempo de tela é recomendado?

A Sociedade Brasileira de Pediatria apresenta orientações conforme a faixa etária:

  • Menores de 2 anos: evitar a exposição às telas, inclusive de forma passiva.
  • De 2 a 5 anos: no máximo uma hora diária, com supervisão.
  • De 6 a 10 anos: entre uma e duas horas diárias, no máximo, com acompanhamento.
  • De 11 a 18 anos: limitar a duas ou três horas diárias, preservando especialmente o sono e a convivência familiar.


Essas recomendações precisam ser interpretadas considerando a finalidade do uso, a qualidade dos conteúdos e as necessidades individuais, sem transformar o tempo máximo em uma meta diária.

A Organização Mundial da Saúde também destaca, em suas diretrizes para crianças menores de cinco anos, a importância de reduzir comportamentos sedentários, garantir sono adequado e ampliar as oportunidades de brincadeiras ativas.

O exemplo começa dentro de casa

A construção de hábitos digitais saudáveis exige participação familiar.

Não basta estabelecer limites para as crianças quando os próprios adultos permanecem conectados durante refeições, conversas e momentos de convivência.

Criar espaços livres de celulares, incentivar a leitura, proporcionar atividades ao ar livre e reservar momentos para brincar em família são medidas que favorecem o desenvolvimento infantil.

Mais do que proibir dispositivos, é necessário ensinar a utilizá-los com equilíbrio, responsabilidade e consciência.

Menos conexão digital, mais conexão humana

A tecnologia pode ser uma importante ferramenta educativa quando utilizada de maneira intencional, supervisionada e adequada à idade.

Entretanto, nenhum aplicativo substitui completamente a riqueza de uma brincadeira compartilhada, o acolhimento de uma conversa ou as descobertas realizadas por meio da exploração do mundo real.

A criança precisa correr, imaginar, experimentar, questionar, construir amizades, enfrentar desafios e descobrir suas próprias capacidades.

Reduzir o excesso de telas não significa afastar as crianças do futuro. Significa garantir que elas tenham oportunidades de viver plenamente o presente.

Porque a infância não deve ser apenas assistida através de uma tela. Ela precisa ser vivida, sentida, explorada e compartilhada.

Referências científicas

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Menos Telas Mais Saúde – Atualização 2024. Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital. Manual de Orientação nº 163, agosto de 2024.

Organização Mundial da Saúde (OMS). Guidelines on Physical Activity, Sedentary Behaviour and Sleep for Children Under 5 Years of Age. Genebra, 2019.

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Sociedade Brasileira de Pediatria atualiza orientações para crianças e adolescentes na era digital.Agosto de 2024. Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2023.

Nathanya Moraes
Psicopedagoga Clínica
Psicoeducação parental Neuroeducação


📲 Siga o Portal ClubeNews no Instagram e no Facebook.

Envie sua sugestão de pauta para nosso WhatsApp e entre no nosso Canal.
Confira as últimas notícias: clique aqui! 

Leia também: