
Por Léo Marques, da Agência Einstein
Para muita gente, o celular já virou uma extensão da rotina de cuidados com a saúde. Há aplicativos para acompanhar a pressão arterial, lembrar de medicamentos, registrar atividade física, monitorar o sono e oferecer orientações personalizadas. Mas o que faz uma ferramenta digital realmente ajudar, em vez de apenas acumular dados e notificações?
“O bom aplicativo é o que transforma a informação coletada em algo útil para a tomada de decisão ou para a mudança de comportamento”, diz Alexandre Chiavegatto Filho, professor de inteligência artificial em saúde na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, é importante observar pontos como evidência científica do benefício, facilidade de utilização, personalização e transparência sobre a origem das recomendações.
Um app que registra hábitos ou promove atividade física tem um perfil de risco diferente de uma tecnologia que mede parâmetros clínicos, identifica arritmias, interpreta exames, sugere diagnósticos ou influencia tratamentos. “Quanto maior for a influência sobre uma decisão clínica e maior o dano potencial de um erro, mais elevado deve ser o rigor de evidência, validação, segurança, rastreabilidade e supervisão [do aplicativo]”, afirma Grace Marcon Dal Sasso, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS).
A cautela vale especialmente para ferramentas que utilizam a inteligência artificial. Uma resposta pode parecer segura, personalizada e convincente, e ainda estar equivocada. “Estar em uma loja de aplicativos, ter muitos downloads ou avaliações positivas não equivale a possuir validação clínica. O consumidor precisa avaliar menos o brilho da interface e mais a sua finalidade, a evidência e o risco de a ferramenta estar errada”, orienta Dal Sasso.
A falsa precisão é um ponto de atenção. “Medir continuamente não significa medir corretamente; e um número com duas casas decimais não é necessariamente clinicamente exato”, ressalta a vice-presidente da SBIS. Isso vale para relógios, sensores e outros dispositivos conectados ao celular. A qualidade da informação depende do equipamento, da forma de medição, das condições de uso e da validação da tecnologia para aquilo que promete aferir.
Outro cuidado envolve os dados. Para funcionar, muitos aplicativos coletam informações sobre saúde, medicamentos, peso, atividade física e hábitos. Antes de aceitar todas as permissões, vale perguntar por que cada dado é necessário, quanto tempo ficará armazenado e com quem poderá ser compartilhado. “Em saúde, uma regra simples é: se o aplicativo solicita muito mais informação do que precisa para seu propósito, é o caso de desconfiar”, diz Chiavegatto Filho.
Notificações também merecem atenção. Alertas em excesso podem fazer com que até os importantes sejam ignorados. O ideal é que a ferramenta seja seletiva e permita personalizar a frequência e a relevância das mensagens.
Antes de adotar um aplicativo, é preciso testar seus benefícios
É importante verificar se o aplicativo foi avaliado cientificamente. A aparência profissional e a popularidade não garantem que uma ferramenta produza os benefícios que promete. Estudos clínicos ajudam a avaliar se ela realmente funciona para a finalidade proposta, para quais pessoas e em quais condições.
“Apenas uma pequena parcela dos aplicativos de saúde disponíveis passa por avaliações rigorosas em ambiente de pesquisa clínica”, ressalta a cardiologista Karla Espírito Santo, líder de Estudos Clínicos Descentralizados e Modelos Inovadores de Trials da Academic Research Organization (ARO), do Einstein Hospital Israelita.
A médica e pesquisadora foi uma das responsáveis pelo estudo conduzido no Einstein em parceria com a startup Elfie, realizado justamente para avaliar se uma intervenção digital baseada em aplicativo seria capaz de melhorar o controle da pressão arterial em pacientes com hipertensão.
Apresentada no fim de agosto no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), a pesquisa acompanhou 930 pessoas com hipertensão não controlada no Brasil e no Vietnã, em um ensaio clínico randomizado. Os participantes receberam ou o cuidado usual ou o cuidado usual associado ao aplicativo Elfie voltado ao acompanhamento de doenças crônicas.
A ferramenta reúne lembretes para tomar medicamentos, acompanhamento da pressão e do peso, conteúdos educativos, sistema de recompensas e inteligência artificial para dar feedback sobre a adesão ao plano de monitoramento.
Na análise principal, que considerou todos os participantes que receberam o aplicativo, não houve diferença estatisticamente significativa na pressão arterial sistólica entre os grupos após seis meses de uso. Mas quando os pesquisadores analisaram apenas quem manteve um nível mínimo de engajamento com a ferramenta, a queda foi maior: 4,2 mmHg em quem interagiu ao menos uma vez por mês e 4,8 mmHg para aqueles com uso semanal durante pelo menos 80% do período do estudo, em relação àqueles com cuidado usual.
O trabalho encontrou outros efeitos. O grupo de usuários do aplicativo teve 36% mais chance de apresentar melhor adesão aos medicamentos, independentemente do nível de engajamento. “Uma possível explicação é que algumas funcionalidades, como a lista de medicamentos e os lembretes diários, possam ter influenciado esse comportamento, mesmo sem exigir um uso muito frequente do aplicativo”, analisa Espírito Santo.
Também houve melhora em medidas de autocuidado, menos intensificação do tratamento e redução das consultas cardiovasculares não programadas. “Nesse sentido, há uma hipótese de que a intervenção digital, ao melhorar a adesão e o autocuidado, tenha ajudado os pacientes a manter a pressão arterial mais controlada com uso de menos medicamentos”, comenta o cardiologista Eduardo Bello Martins, pesquisador da ARO e um dos autores do estudo.
Os resultados sugerem que o potencial dessas ferramentas está em facilitar a rotina do tratamento. Para quase 90% dos usuários, o plano de monitoramento da pressão foi avaliado como útil, enquanto cerca de 84% afirmaram que os lembretes ajudavam com a medicação diária.
Na pesquisa, 71,4% dos participantes consideraram o aplicativo fácil de usar e 78,5% afirmaram que continuariam utilizando a ferramenta depois do estudo. “A facilidade de uso é relevante porque a tecnologia só pode exercer seu efeito se o paciente conseguir e quiser utilizá-la ao longo do tempo. Esse ponto é especialmente importante em doenças crônicas, nas quais o tratamento pode durar décadas, e um aplicativo que imponha dificuldades tende a ser abandonado”, ressalta Karla Espírito Santo.
No entanto, segundo os pesquisadores, os resultados não podem ser automaticamente aplicados a qualquer app. “Não podemos afirmar, por exemplo, que outro aplicativo reduzirá a pressão arterial em 4 ou 5 mmHg entre usuários engajados, nem que ele produzirá resultados equivalentes em diabetes, insuficiência cardíaca ou outras doenças”, diz Martins. “Da mesma forma, o estudo sugere a importância de oferecer ao paciente orientação e acompanhamento sobre o uso das funcionalidades do aplicativo, de modo que ele possa se engajar e utilizá-lo conforme a orientação do profissional de saúde.”
A experiência do estudo indica que popularidade, recursos tecnológicos e facilidade de uso podem contar a favor de um app, mas não substituem as evidências de benefício nem o acompanhamento profissional.
Fonte: Agência Einstein
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