14 de abril de 2026

Rastreamento do câncer de próstata: quando, para quem e como fazer de forma inteligente

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Rastreamento do câncer de próstata (Foto: g1)

O câncer de próstata é o tipo de câncer mais comum entre os homens no Brasil (excluindo câncer de pele não melanoma) e uma das principais causas de morte por câncer masculino. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados mais de 70 mil novos casos por ano no país, o que reforça a importância de estratégias eficazes de diagnóstico precoce.

Mas afinal: quem deve fazer rastreamento? Quando começar? E qual a melhor forma?

O que dizem as diretrizes mais atuais

As recomendações mais recentes da American Urological Association (AUA), atualizadas em 2026, trazem um conceito central: o rastreamento não deve ser automático, deve ser individualizado e baseado em decisão compartilhada entre médico e paciente.

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) adota uma posição semelhante, mas com uma abordagem ainda mais ativa frente à realidade nacional, justamente porque, no Brasil, ainda há grande número de diagnósticos em fases avançadas.

Isso significa que cada paciente deve entender benefícios, riscos e limitações antes de iniciar o acompanhamento.

Exame principal: PSA

O exame de sangue PSA (antígeno prostático específico) continua sendo o principal método de rastreamento. Ele deve ser o primeiro teste utilizado quando se decide investigar os problemas com a próstata. Entretanto, um exame de PSA alterado não significa automaticamente câncer. A avaliação deve considerar o exame e toque retal, a idade, histórico familiar e outros fatores de risco.

Idade ideal para começar

As diretrizes sugerem que aos 45 a 50 anos deve ser iniciado o rastreamento com um exame de PSA basal. Para homens de maior risco (história familiar, fatores genéticos, população negra), este início deve ser antecipado para os 40-45 anos. O grupo etário que mais se beneficia do rastreamento é o situado entre 50 a 69 anos com exames em intervalos de 1 a 3 anos.

E o toque retal? Ainda é necessário?

Sim, com papel complementar ao exame de sangue (PSA). O exame físico pode ajudar na avaliação de risco, especialmente quando associado ao PSA, já que cerca de 15 % dos tumores de próstata não alteram o PSA.

O papel da ressonância da próstata

Um dos maiores avanços recentes no rastreamento e diagnóstico do câncer de próstata é a ressonância magnética multiparamétrica. Hoje, ela é cada vez mais utilizada antes da biópsia para identificar lesões suspeitas e direcionar a coleta de amostras com maior precisão. As diretrizes atuais indicam que a ressonância pode aumentar significativamente a detecção de tumores clinicamente relevantes e, ao mesmo tempo, reduzir em até 50% as biópsias desnecessárias. Na prática, isso representa uma mudança importante: saímos de um modelo “cego”, com biópsias sistemáticas, para uma abordagem mais personalizada, guiada por imagem e mais segura para o paciente, embora ainda haja limitações de acesso no sistema público brasileiro.

O grande desafio: evitar excesso e falta de diagnóstico

O rastreamento tem dois riscos importantes:

  1. Excesso de diagnóstico: detectar tumores indolentes que nunca causariam problema
  2. Diagnóstico tardio: ainda muito comum no Brasil, onde muitos pacientes chegam com doença avançada

A diretriz atual reforça que o objetivo não é detectar qualquer câncer, mas sim identificar tumores clinicamente significativos, que realmente impactam a vida do paciente.

Realidade brasileira: ainda temos um problema de acesso

Apesar da evolução das recomendações, a realidade no Brasil é diferente. Muitos homens ainda não fazem acompanhamento regular. Há baixa adesão a consultas preventivas. Os dados do Sistema único de Saúde mostram que o número de consultas ao urologista é muito reduzido em relação ao número de consultas ginecológicas. Isto faz com que parte significativa dos casos de câncer de próstata ainda seja diagnosticada em estágios avançados.

Campanhas como o Novembro Azul ajudam, mas o maior desafio continua sendo levar o homem ao consultório antes dos sintomas aparecerem.

Por fim, o que mudou na prática?

Hoje, o rastreamento moderno é individualizado, baseado em risco, apoiado por ferramentas como ressonância multiparamétrica e calculadoras de risco de se desenvolver a doença, menos invasivo e mais preciso.

Em muitos casos, é possível inclusive evitar biópsias desnecessárias, reduzindo complicações.

O rastreamento do câncer de próstata não é mais uma abordagem “tamanho único”.
Ele deve ser feito com estratégia, ciência e, principalmente, diálogo.

 O mais importante não é apenas fazer o exame, é fazer da forma certa, no momento certo e para o paciente certo.

Dr. Giuliano Aita, membro do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia


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