
Na noite do primeiro turno de 2022, o Brasil parou. A televisão ficou ligada. Os grupos de WhatsApp explodiram. As redes sociais entraram em ebulição. E, à medida que as urnas eram abertas, crescia a sensação de espanto. Os números divergiam das pesquisas divulgadas na véspera. Em poucos minutos, institutos passaram a ser acusados de erro, incompetência e até manipulação. Mas talvez a pergunta correta nunca tenha sido “por que as pesquisas erraram?”. Talvez a pergunta certa seja outra. E se parte do eleitorado simplesmente mudou de ideia na última hora?
A discussão volta a ganhar força em 2026. Ainda estamos em maio. A eleição ocorrerá apenas em outubro. Mesmo assim, as primeiras pesquisas nacionais já apontam cenários competitivos, com diferenças relativamente estreitas entre possíveis candidaturas. Ao mesmo tempo, permanece elevado o número de eleitores indecisos ou pouco convictos de sua escolha. E isso muda tudo.
Em contextos assim, tratar pesquisas eleitorais como retratos definitivos do futuro é um erro de interpretação política. Pesquisas influenciam sim a decisão do eleitorado, mas não antecipam comportamentos congelados. Elas registram um momento. E momentos políticos podem mudar rapidamente.
É justamente essa hipótese que ajuda a iluminar o artigo “Pesquisas eleitorais e mudanças tardias na decisão do voto”, de Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes, publicado em 2024 pela revista Opinião Pública, do CESOP/UNICAMP. O mais interessante é que a explicação proposta pelos autores é menos conspiratória e muito mais científica.
O que ocorreu em 2022 tem nome. Na Ciência Política, chama-se voto estratégico. O famoso “voto útil”. Em cenários polarizados, muitos eleitores abandonam candidaturas menos competitivas para impedir a vitória de um adversário rejeitado. O eleitor deixa de votar apenas “em quem gosta”. Passa também a votar “contra quem teme”.
E isso tende a acontecer justamente nos últimos dias da campanha. As pesquisas ajudam eleitores a perceber quais candidaturas realmente parecem competitivas. Quando a disputa se estreita, parte do eleitorado recalcula sua decisão. Não por paixão repentina. Mas por estratégia.
Só que havia outro personagem importante naquela eleição. O eleitor indeciso. E aqui existe um erro frequente. O indeciso costuma ser tratado como alguém desinformado ou desinteressado. Nem sempre é assim. Muitas vezes, trata-se de um eleitor ambivalente. Alguém atravessado por mensagens contraditórias, vídeos políticos, grupos familiares, igrejas, redes sociais e pressões emocionais intensas.
Em ambientes altamente polarizados, a decisão do voto pode ocorrer literalmente na reta final. O estudo de Pereira e Nunes ganha força justamente porque não fica preso à abstração teórica. Os autores trabalham com dados concretos, experimentos e modelos estatísticos para mostrar que eleitores da chamada “terceira via” e parte dos indecisos apresentavam forte propensão a alterar o voto nos últimos dias da disputa presidencial.
Em outras palavras, as pesquisas talvez não tenham captado um eleitorado parado porque esse eleitorado simplesmente não estava parado. E aqui está o ponto central para compreender a política contemporânea. Durante décadas, campanhas eleitorais possuíam ritmos relativamente previsíveis. Hoje, isso mudou. O WhatsApp acelerou o tempo político. O Telegram acelerou o tempo político. Os vídeos curtos aceleraram o tempo político. Influenciadores, igrejas digitalizadas e redes informais de circulação de informação transformaram profundamente a dinâmica das campanhas.
A campanha já não termina no horário eleitoral. Ela continua no vídeo encaminhado de madrugada. No corte de trinta segundos. No áudio recebido no grupo da família. Na avalanche de mensagens das últimas quarenta e oito horas.
O eleitor contemporâneo é mais fragmentado. Está mais exposto a estímulos simultâneos. E, quase sempre, é muito mais volátil do que os modelos clássicos supunham. Talvez seja justamente isso que parte do debate público ainda não compreendeu. Finalizo enfatizando que as pesquisas eleitorais influenciam sim o voto do eleitorado, mas esse age estrategicamente com as informações que recebe, tanto das pesquisas, quanto de múltiplos outros canais.
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