24 de junho de 2026

“Sempre sonhei ser mãe”, diz mulher que denunciou morte da filha após parto no Piauí

A família também alega que o arquivamento do BO feito ocorreu porque o delegado plantonista seria irmão da médica responsável pelo parto.

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A atendente de loja Ana Loyse Mendes denunciou um suposto caso de negligência médica após a morte da filha recém-nascida em Picos, no Sul do Piauí. Segundo o relato, a médica responsável pelo atendimento teria insistido na realização de parto normal, mesmo diante de complicações, o que, de acordo com a família, pode ter contribuído para a morte da criança.

A revolta da família aumentou após o boletim de ocorrência registrado em fevereiro ter sido arquivado três dias depois, sem avanço nas investigações. Para os familiares, a decisão demonstrou falta de sensibilidade diante da gravidade do caso.

A família também alega que o arquivamento ocorreu porque o delegado plantonista seria irmão da médica responsável pelo parto.

A bebê, chamada Ana Laura, realizou pré-natal com acompanhamento regular, conforme exames feitos durante a gestação.

“Eu sempre sonhei em ser mãe. Minha gestação foi toda tranquila, desde o primeiro até o último trimestre. A Ana Laura foi muito esperada”, disse a mãe.

No dia do parto, Ana Loyse deu entrada no Hospital Regional Justino Luz, por volta das 17h30, quando recebeu diagnóstico inicial favorável ao parto normal.

Ana Loyse (foto: TV Clube)

No entanto, às 19h, durante a troca de plantão, uma médica residente assumiu o atendimento. Segundo a família, foi nesse momento que começaram as falhas no protocolo médico.

Conforme denúncia do Ministério Público do Piauí (MP-PI), uma enfermeira e uma fisioterapeuta perceberam que as contrações começaram a se espaçar e recomendaram a realização de cesariana, mas o procedimento foi recusado pela médica.

“Eu já passando mal, vomitei, sem aguentar, me deu suor frio, tontura, eu dizendo ‘não aguento mais, quero cesária’. Quando foi 11h55, eu consegui expulsar a Ana Laura, e ela [médica] não estava lá. Só estavam a fisioterapeuta e a enfermeira”, relatou Ana Loyse.

Polícia reabre caso

Diante da repercussão e das críticas, a Polícia Civil do Piauí informou que decidiu reabrir o caso. A nova investigação deve analisar prontuários médicos, ouvir testemunhas e solicitar perícias para esclarecer as circunstâncias da morte da bebê.

O delegado Rodrigo Morais, titular da Delegacia de Picos, explicou à TV Clube que estava de férias quando o caso ocorreu, mas que, assim que foi comunicado pelo MP-PI, adotou as providências cabíveis. Entre as medidas, foi instaurado um inquérito policial, que acabou sendo repassado a outra autoridade policial.

“Foi registrado como fato atípico durante as minhas férias. Os boletins de ocorrência, quando são registrados como fatos atípicos, eu não abro, eu não leio o conteúdo porque é um fato elencado como não criminoso. Não tenho como fazer juízo de valor porque o BO foi registrado sem a minha supervisão”, ressaltou.

Em nota, o Ministério Público confirmou que mantém um procedimento em andamento para apurar possíveis falhas no serviço de obstetrícia do Hospital Regional de Picos e informou que já solicitou ao Conselho Regional de Medicina (CRM) a investigação da conduta dos médicos envolvidos.

Outro lado

O CRM informou que não pode se pronunciar por se tratar de um caso que corre sob sigilo, mas confirmou a instauração de sindicância e que a investigação está em andamento.

O Hospital Regional Justino Luz informou que um comitê interno apurou a situação e concluiu que a morte da bebê foi um “evento adverso de natureza clínica”, sem correlação direta com negligência, imprudência ou imperícia profissional.

A reportagem também entrou em contato com o delegado responsável pelo arquivamento inicial da denúncia, mas ele preferiu não se pronunciar. A produção não conseguiu contato com a médica denunciada.


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