
Por Marília Marasciulo, da Agência Einstein
Há mais de uma década, o vírus da chikungunya vem chamando a atenção de autoridades de saúde no Brasil e no mundo. Confirmada em 2014 no país, a arbovirose — transmitida pela picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Aedes— tem sido cada vez mais comum em todas as regiões brasileiras. Daí os esforços em busca de uma vacina.
Neste ano, anúncios ligados a novos imunizantes aumentam as expectativas de melhorar a prevenção contra a doença. Em junho, a farmacêutica Eurofarma submeteu à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o pedido de análise do imunizante “CHIKV VLP”, já aprovado para pessoas a partir de 12 anos nos Estados Unidos, na União Europeia, no Reino Unido, na Suíça e no Canadá. A vacina é aplicada em dose única e utiliza partículas semelhantes ao vírus da chikungunya, conhecidas pela sigla VLP.
Em maio, a Anvisa autorizou que o Instituto Butantan, em São Paulo, começasse a produzir a Butantan-CHIK. Desenvolvida em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva, a vacina utiliza vírus vivo atenuado e está autorizada para pessoas de 18 a 59 anos com risco aumentado de exposição.
Embora a chikungunya tenha baixa mortalidade, ela pode ser incapacitante e deixar dores articulares por meses ou anos. “A repercussão clínica é muito desagradável e pode, em algumas circunstâncias, retirar a pessoa do trabalho ou de outras atividades”, afirma o infectologista Luís Fernando Aranha Camargo, do Einstein Hospital Israelita. Por isso, a vacinação é uma estratégia relevante de saúde pública.
Em 2025, o Brasil notificou 129.123 casos prováveis de chikungunya, dos quais 107.975 foram confirmados, além de 121 mortes, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Entre o fim do ano e o início de 2026, a entidade observou um aumento sustentado de casos em diferentes pontos das Américas e a retomada da transmissão local em áreas que não registravam a circulação do vírus havia vários anos.
Em nota enviada à Agência Einstein, o Ministério da Saúde informa que a imunização ocorre atualmente apenas em uma estratégia-piloto, conduzida pelo Instituto Butantan com apoio da pasta. A iniciativa, criada para avaliar o impacto da vacinação em larga escala sobre a transmissão da doença, abrange municípios de Alagoas, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Sergipe e São Paulo. Cerca de 48 mil doses foram aplicadas até o momento.
O ministério não informou se existe um pedido em análise ou previsão para a oferta regular da vacina. De acordo com o órgão, a incorporação de novas tecnologias ao Sistema Único de Saúde (SUS) depende de parecer favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que avalia critérios como eficácia, segurança e custo-efetividade.
Tecnologias diferentes
A vacina CHIKV VLP reproduz a estrutura externa do vírus sem carregar seu material genético. As partículas não infectam células, não se multiplicam nem causam a doença, mas são reconhecidas pelo sistema imunológico, que passa a produzir anticorpos contra o vírus. A ausência de vírus atenuado diferencia o produto da vacina do Butantan e pode ampliar as possibilidades de uso.
Imunizantes desse tipo tendem a oferecer maior segurança para grupos nos quais as vacinas vivas exigem cautela, como idosos e pessoas imunossuprimidas. “A gente tem um pouco de cuidado com a vacinação de indivíduos de 60 anos ou mais com vacinas de vírus vivos. Não sabemos ainda por que, talvez o sistema imune seja menos preparado ou mais envelhecido para lidar com esse estímulo imunológico, mas é um fenômeno que está se mostrando comum em algumas vacinas para arbovírus”, observa o pediatra infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
A Butantan-CHIK tem o mesmo princípio ativo, composição e processo de fabricação da Ixchiq, primeira vacina contra a chikungunya registrada no mundo. Por isso, os dados de segurança e de resposta imunológica obtidos nos estudos da Ixchiq também se aplicam à versão nacional.
Relatos de eventos adversos graves levaram as agências reguladoras a rever as condições de uso da Ixchiq. Em maio de 2025, a Agência Europeia de Medicamentos restringiu temporariamente a aplicação em pessoas com 65 anos ou mais. Dois meses depois, após analisar 28 casos graves, a maioria em idosos com várias doenças crônicas, o órgão retirou a restrição, mas incluiu novos alertas e passou a recomendar a vacina apenas quando houver risco significativo de infecção, após avaliação individual dos benefícios e riscos.
No Brasil, o imunizante está autorizado apenas até os 59 anos, excluindo a faixa etária em que se concentrou a maior parte dos eventos graves, e permanece contraindicado para gestantes, pessoas imunodeficientes e imunossuprimidas. No acordo de transferência de tecnologia, o Butantan ficou responsável pela formulação e pelo envase da vacina.
Para o médico infectologista Julio Croda, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), o domínio dessas etapas dá ao país mais autonomia, além de ampliar a oferta e reduzir a dependência de doses importadas. “A chikungunya é um problema no Brasil, tem causado surtos e óbitos com frequência, e é importante ter essa capacidade de produção nacional para eventualmente vacinar a população”, avalia Croda.
Outras estratégias de prevenção
Além das duas vacinas que chegaram à etapa regulatória, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Bonn, na Alemanha, testam uma terceira estratégia. A candidata ainda se encontra na fase pré-clínica, avaliada apenas em camundongos.
A equipe modificou o material genético do vírus da chikungunya para impedir que ele complete seu processo de maturação. Os pesquisadores substituíram o trecho reconhecido pela furina, enzima humana que torna o vírus infeccioso, por uma sequência que só pode ser ativada em laboratório por uma enzima do vírus do mosaico do tabaco. Com a alteração, as partículas preparadas em laboratório conseguem infectar uma célula uma única vez. Os novos vírus produzidos por essa célula permanecem imaturos e não se espalham pelo organismo. A ideia é provocar uma resposta imunológica semelhante à das vacinas vivas, mas reduzir o risco de replicação.
No experimento, todos os camundongos vacinados sobreviveram após a exposição ao vírus selvagem, enquanto os animais do grupo de controle morreram em até três dias. A candidata também reduziu a quantidade de vírus no sangue e o inchaço nas patas. As partículas produzidas com a nova técnica estimularam uma quantidade de anticorpos cerca de nove vezes maior do que as partículas não tratadas. Os resultados foram publicados na revista científica NPJ Vaccines, mas ainda não permitem concluir que seja segura ou eficaz em pessoas.
Mesmo com o avanço das vacinas, a redução sustentada da chikungunya dependerá da combinação entre imunização e controle do Aedes aegypti. Essa medida também protege contra doenças para as quais ainda não há vacina, como a zika, além de reduzir o risco para idosos, crianças e pessoas imunossuprimidas que não estejam contemplados pelas indicações dos imunizantes. “Nenhuma vacina é 100% eficaz, e eliminar o vetor é muito mais difícil do que vacinar a população”, afirma o infectologista do Einstein. “Não sei se precisamos falar em erradicar [a chikungunya], mas diminuir a doença a níveis mínimos já é um grande avanço.”
Fonte: Agência Einstein
Envie sua sugestão de pauta para nosso WhatsApp e entre no nosso Canal.
Confira as últimas notícias: clique aqui!