Os impactos da hipersexualização do corpo gay negro em ambientes digitais

Hipersexualizar é retirar o aspecto de humanidade e enxergar os indivíduos como objeto de desejo

Luze Silva (Foto: Arquivo pessoal)

Por Luze Silva
Jornalista e mestrando em comunicação digital na UFPI
Artigo enviado ao Portal ClubeNews

Histórica e socialmente a população negra sofreu diversos atravessamentos de seus corpos, culturas e realidades, colocando-a como povo à margem da sociedade e desprovido de características e interesses próprios.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2018) mostram que nossa sociedade é composta por 54,9% de pessoas negras; mas, contraditoriamente, constituir essa maioria significa fazer parte de uma minoria que ainda luta por seus direitos e resiste aos ferrenhos sistemas de opressões.

Na era digital e tecnológica, outras ferramentas operam para a manutenção de um sistema preconceituoso que retira do gay negro suas subjetividades e singularidades.

Quando penso no termo hipersexualização, rapidamente me vem à mente a ideia da pesquisadora Hipólito em que a mesma diz que hipersexualizar é o ato de sexualizar ao extremo um corpo. Ou seja, é retirar todo o seu aspecto de humanidade e ver esse indivíduo apenas como um objeto de desejo.

Indubitavelmente, isso é reflexo de anos do processo desumano de escravização de nossos antepassados negros. Isso nos ajuda a entender, inclusive, que o fenômeno da hipersexualização remota do período escravista — quando o negro é visto apenas como meio para o serviço braçal e sexual — e permeia as relações sociais na contemporaneidade. Em outras palavras, os negros são desumanizados e objetificados em muitos cenários.

Neste ponto, observo que os gays negros também enfrentam contextos de estigmatização de seus corpos dentro do universo LGBTQIAP+, uma vez que existe um construto social criado erroneamente que visa exigir que os mesmos se adequem aos “padrões” quando tentam estabelecer relações amorosas românticas e/ou sexuais.

Ou seja, ser o ativo das relações sexuais, forte, viril e dominador são algumas das ideias supergeneralizadas colocadas sobre este grupo, mas que não são comuns para todos. Nos ambientes digitais, como aplicativos de relacionamentos, esses preconceitos são potencializados.

Dentro desses espaços digitais, o gay negro passa por um processo de desumanização de seu corpo. É notório, inclusive, que são indivíduos vistos totalmente sexualizados, desprovidos de outras características e “servindo” para saciar, grande parte das vezes, as necessidades do homem branco que alimenta o mito da virilidade sexual negra.

Nesses aplicativos existe uma cobrança exacerbada sobre a atuação do gay negro, pautada em estereótipos e expectativas. Por influência disso, alguns gays negros adotam comportamentos estereotipados para se encaixar dentro desses recortes sociais colocados como ideais para eles, mas que não contemplam suas singularidades.

O convite que faço, portanto, é que busquemos ferramentas sociais que derrubem estruturas racistas e discriminatórias. A mídia tradicional e alternativa, assim como outros espaços educativos, são peças-chave para uma modificação social que passe a ser sedimentada na igualdade, equidade e respeito.

Fazer isto não é um processo fácil, mas torna-se urgente e extremamente necessário.


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