
Muitos adultos autistas passaram grande parte da vida sem diagnóstico, sendo vistos apenas como “difíceis”, “inflexíveis”, “frios”, “explosivos” ou “antissociais”. Entretanto, por trás desses comportamentos, podem existir sobrecarga sensorial, dificuldade para compreender situações sociais, rigidez cognitiva, ansiedade, necessidade de previsibilidade e grande esforço para se adaptar ao ambiente.
O nível 1 de suporte não significa autismo “leve”. Significa que a pessoa necessita de apoio, ainda que consiga estudar, trabalhar, constituir família e manter uma rotina aparentemente independente. Muitas vezes, o sofrimento acontece de maneira silenciosa e só aparece por meio do isolamento, da exaustão, da procrastinação, das crises emocionais, dos conflitos ou da dificuldade em lidar com mudanças e frustrações.
Essas dificuldades não afetam somente o adulto autista. Quando não são compreendidas e trabalhadas, podem repercutir na convivência com o companheiro, os filhos, os familiares e os colegas de trabalho. A dificuldade de comunicação pode ser interpretada como indiferença; a rigidez pode impedir acordos; a desregulação emocional pode gerar palavras e atitudes que machucam; e a necessidade de controle pode tornar as relações cansativas.
O diagnóstico explica muitos comportamentos, mas não deve ser utilizado para invalidar os sentimentos das outras pessoas nem para justificar atitudes prejudiciais. Ser autista não significa não ter responsabilidade afetiva. Significa que determinadas habilidades talvez precisem ser compreendidas, ensinadas e desenvolvidas de maneira adequada.
A terapia não tem o objetivo de “curar” o autismo ou apagar a identidade da pessoa. Ela pode favorecer o autoconhecimento, a comunicação assertiva, a flexibilidade cognitiva, a regulação emocional, o controle da ansiedade e a construção de relações mais saudáveis. Também ajuda o adulto a reconhecer seus limites, expressar suas necessidades e reparar comportamentos que tenham causado sofrimento.
Buscar ajuda não é admitir fraqueza. É assumir responsabilidade pelo próprio bem-estar e pelo impacto que nossas atitudes exercem sobre aqueles que convivem conosco.
Com compreensão, acompanhamento adequado e disposição para mudar, é possível construir uma vida mais leve, consciente e respeitosa para a pessoa autista e para todos que fazem parte de sua história.
Nathanya Moraes
Psicopedagoga Clínica
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