11 de setembro de 2026

Por que não adianta usar canetas para emagrecer sem mudar o estilo de vida

Estudo mostra que o peso tende a voltar após a interrupção dos medicamentos, reforçando que a obesidade exige tratamento contínuo e uma abordagem que vai além dos remédios

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Foto: Magnific/Reprodução

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

As canetas para tratar diabetes e obesidade se popularizam cada vez mais como medicamentos eficazes para a redução do peso. Contudo, se por um lado a ciência evidencia seus potenciais a favor do emagrecimento e inclusive para outros aspectos da saúde, também crescem os achados sobre a importância da mudança de estilo de vida durante o tratamento.

Isso se deve, em primeiro lugar, ao fato de a obesidade ser uma doença crônica, assim como outras condições que exigem tratamentos de longo prazo, como hipertensão e o próprio diabetes. “Quando o tratamento é interrompido, a doença volta a se manifestar. O reganho de peso não significa falta de força de vontade ou pouco empenho do paciente. Na verdade, é uma resposta biológica do organismo, que tenta recuperar o peso perdido”, explica o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita.

Medicamentos como semaglutida e tirzepatida — nomes dos princípios ativos das “canetas emagrecedoras” — agem sobre um hormônio chamado GLP-1, responsável pelas sensações de fome e saciedade. Ao frear sua ação, elas fazem a pessoa querer comer menos, promovendo o emagrecimento. Só que, ao interromper o uso, o organismo volta a ativar mecanismos que favorecem o ganho de peso.

Daí por que esses fármacos não devem ser vistos como solução rápida para emagrecer. “Muitas pessoas apenas usam o remédio, comem menos porque o apetite diminuiu e emagrecem. Mas, se elas não mudam o padrão alimentar, não praticam atividade física regularmente e não fazem uma mudança comportamental, a tendência é recuperar boa parte do peso quando o medicamento é suspenso”, alerta Rosenbaum.

Realidade em evidência

Uma revisão sistemática publicada no início de janeiro no BMJ detalha como esse processo ocorre na prática. Ao analisar 37 estudos com mais de 9.300 adultos com sobrepeso ou obesidade, os pesquisadores observaram que os participantes recuperaram cerca de 0,4 kg por mês após suspenderem o tratamento.

Os participantes avaliados usavam diferentes classes de medicamentos: desde opções mais antigas, como sibutramina e orlistate, até as terapias mais recentes com liraglutida, semaglutida e tirzepatida. Em média, eles permaneceram 39 semanas em tratamento e continuaram sendo acompanhados por mais 32 semanas após a interrupção da medicação, permitindo aos pesquisadores observar o comportamento do peso nesse período.

Quem tratou a obesidade com medicamentos perdeu, em média, 8,3 kg — mais que o dobro da perda observada nos grupos controle. Quando o tratamento terminou, porém, o peso voltou a aumentar gradualmente. No ritmo de 0,4 kg a mais por mês, eles retornariam ao peso inicial em aproximadamente um ano e sete meses.

Outra constatação foi que os benefícios metabólicos conquistados durante o uso das medicações, como melhora da glicemia, colesterol e pressão arterial, também começaram a diminuir após o fim do uso das medicações.

“As mudanças no estilo de vida potencializam a perda de peso e aumentam as chances de manter os resultados no longo prazo”, frisa o endocrinologista do Einstein. “Os medicamentos são uma ferramenta muito eficaz no tratamento da obesidade, mas fazem parte de uma estratégia mais ampla. Sozinhos, eles não conseguem sustentar a perda de peso por muito tempo.”

Resultados sustentáveis

Manter os resultados de emagrecimento conquistados com as medicações depende de um conjunto de hábitos saudáveis. Uma alimentação rica em proteínas e fibras ajuda a aumentar a saciedade e reduzir o consumo de ultraprocessados. Já a prática regular de exercícios físicos contribui para preservar a massa magra, elevar o gasto energético e melhorar a saúde cardiovascular. Dormir bem é fundamental para regular os hormônios relacionados ao apetite, enquanto o controle do estresse pode reduzir episódios de alimentação emocional.

Embora alguns pacientes suspendam a medicação e não recuperem todo o peso perdido, não é possível prever quem terá esse comportamento. Isso porque o organismo desenvolve mecanismos de defesa contra a perda de gordura. “Esses mecanismos foram importantes para a sobrevivência da espécie em períodos de escassez de alimentos. Hoje, eles dificultam a manutenção da perda de peso”, explica o médico do Einstein.

Segundo Paulo Rosenbaum, o que se vê é que o reganho tende a ser menor em pessoas que perderam menos peso, tinham obesidade menos grave e conseguiram manter hábitos saudáveis consistentemente. “O objetivo não deve ser apenas perder peso rapidamente, mas tratar uma doença crônica. As canetas para emagrecer fazem parte desse tratamento, mas o sucesso depende de uma estratégia de longo prazo, construída entre paciente, médico e equipe multiprofissional”, conclui.

Fonte: Agência Einstein


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