26 de junho de 2026

Do berço do homem americano à Inteligência Artificial: a evolução da tecnologia no Piauí

O sociólogo Glauco Arbix defende que a ferramenta é a mais poderosa tecnologia que a humanidade já criou. 

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Do berço do homem americano à Inteligência Artificial: a evolução da tecnologia no Piauí (Foto: Gerada no ChatGPT)

No Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, estão registrados os vestígios dos primeiros habitantes da América. Eles fabricavam ferramentas com o que tinham disponível. Milhares de anos depois, o ser humano ainda faz o mesmo, com outros materiais e outras finalidades. A tecnologia sempre acompanhou a humanidade.

Um dos grandes avanços tecnológicos é a Inteligência Artificial, que está em nosso dia a dia, mas que já é estudada e pesquisada desde a década de 50. O sociólogo Glauco Arbix defende, na apresentação do Dossiê de Inteligência Artificial na pesquisa científica, da Universidade de São Paulo (USP), que a ferramenta é a mais poderosa tecnologia que a humanidade já criou. 

A IA está nas músicas que são recomendadas em aplicativos específicos, nas indicações de filmes e séries na tela inicial de streamings, no atendimento virtual de empresas, com os chatbots disponíveis por 24 horas e em outras situações do cotidiano. É inegável o quanto esta tecnologia está inserida na nossa rotina, nos ambientes de trabalho e em tarefas diárias, como enviar um dinheiro ou pedir um motorista por aplicativo.

A pesquisa “Consumo de Inteligência Artificial no Brasil”, da Fundação Itaú com a parceria do Instituto Datafolha, aponta que 82% dos entrevistados já ouviram falar de IA, mas apenas 52% entendem o significado do termo. 

No Nordeste os números caem. 73% dos entrevistados afirmam que já ouviram falar sobre IA. Os participantes da pesquisa no Nordeste também se manifestaram sobre o que eles entendem sobre essa tecnologia: 41% afirmam não ter conhecimento no assunto. 

A pesquisa nacional citada também questionou os entrevistados sobre os principais benefícios que a IA pode trazer para a humanidade: 41% acreditam na melhoria na qualidade da educação e apoio para o avanço da ciência e inovação como função mais relevante para a sociedade. 

Gráfico sobre a opinião dos entrevistados de ganhos que IA pode trazer à sociedade (Foto: Fundação Itaú/Datafolha Instituto de Pesquisa)

Os números apontam um déficit regional em relação ao conhecimento ligado a essa tecnologia inovadora, além do pouco conhecimento geral sobre o assunto, já que menos da metade dos entrevistados compreende plenamente o significado do termo. A pesquisa também demonstra que muitos acreditam nos pontos positivos que a IA pode trazer para a sociedade, com ênfase na educação e na ciência. 

Arbix, acreditando no grande potencial do entendimento da IA nas diversas áreas de conhecimento, defende a criação de um ecossistema nacional para a IA, com suas regras e particularidades. Nas palavras do professor: “sem abrir essa oportunidade, será difícil para o Brasil participar da criação de instituições globais de governança, aptas a definir os limites de uma IA e, assim, ajudar na construção da paz”. 

O Piauí saiu na frente e criou a primeira Secretaria de Inteligência Artificial do Brasil, indo ao encontro do que Arbix defende: a construção de um ecossistema nacional de IA com regras e particularidades próprias. O Governo do Piauí é responsável pela SoberanIA, modelo de linguagem que usa dados locais adaptados às necessidades sociais, econômicas e linguísticas da região. 

Em 2025, o governo do Piauí anuncia a criação da Faculdade Estadual Piauí Instituto de Tecnologia — Faculdade PIT, que busca expansão no estado, oferecendo ensino especializado em tecnologia (com cursos de bacharel e técnico em IA, além de analista de prompt de IA e programação). O projeto em 2027 é de expandir as ações da faculdade para outros municípios piauienses.

Alunos da faculdade PIT (Foto: Ascom Investe Piauí)

A Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar) criou o primeiro curso de bacharelado em Inteligência Artificial do Piauí. O campus em Teresina abriu, em 2026, seu primeiro processo seletivo para o curso de bacharelado em Inteligência Artificial. 

Também temos o Instituto Federal do Piauí (IFPI), que ainda não tem um curso específico na área, mas oferece treinamento, cursos e capacitações para seus alunos, além de incentivar a produção científica. 

Entendendo mais sobre IA

Mas o que seria Inteligência Artificial? O termo foi cunhado na Conferência de Dartmouth College, em 1956, mas o britânico Alan Turing é frequentemente apontado como um dos pais da IA e da computação. A história do matemático e cientista computacional é contada no premiado filme O Jogo da Imitação (2014). Ao contrário do que muitos pensam, a IA não surgiu nos últimos anos: ela já existe há mais de 70 anos, construída ao longo de décadas por várias mentes pensantes.

Alan Turing e Benedict Cumberbatch, ator que interpretou o cientista no filme (Foto: Reprodução)

Turing foi precursor da teoria que levou à criação de ferramentas que conhecemos hoje, com um poder impressionante de processamento de dados e criação de imagens, vídeos, sons e muitas outras possibilidades. Em um artigo publicado na década de 1950, o cientista conceituou uma máquina pensante, mecanismo que simula a capacidade humana de resolver problemas e tomar decisões. 

O considerado pai da IA foi convocado pelo governo britânico durante a Segunda Guerra Mundial para decifrar um código nazista que estava criptografado, ou seja, transmitia mensagens e informações para os alemães e, quando os ingleses tentavam ter acesso ao conteúdo, recebiam a mensagem em uma forma diferente da original. Turing ganhou bastante prestígio após as descobertas da época, contribuindo para o avanço tecnológico que culminou nas máquinas atuais.

É importante destacar que avanços como a IA e a internet surgem em um contexto de grande investimento em pesquisa impulsionado pela Segunda Guerra Mundial. O investimento feito na área para se destacar nos conflitos gerou descobertas que, apesar das consequências negativas da guerra, hoje facilitam a vida de pesquisadores e da sociedade em geral.

Atualmente, as empresas que trabalham com produtos de IA generativa utilizam o Deep Learning, que significa Aprendizado Profundo. A máquina utiliza redes neurais e conexões complexas a partir de dados disponíveis na internet, com redes complexas e grandes volumes de dados atuando em conjunto. Tudo isso na palma da mão, em celulares que são derivados dos computadores que, inicialmente, ocupavam salas inteiras e agora são carregados com tanta facilidade no bolso.

O computador Harwell Dekatron, que pesa 2,5 toneladas, trabalhou de 1951 a 1958 em pesquisas sobre energia atômica na Inglaterra (Foto: Divulgação/ Computer Conservation Society)

Os avanços tecnológicos fazem parte da sociedade moderna globalizada e o Piauí cria mecanismos que contribuem para pesquisas que podem mudar a realidade socioeconômica do estado. E quem faz ciência no estado enxerga com otimismo as oportunidades que estão sendo ofertadas no campo da pesquisa e da capacitação profissional na área da tecnologia.

Doutor, mestranda e aprendizes

O conhecimento sobre Inteligência Artificial ficou por muito tempo focado em áreas relacionadas à computação e análise de sistemas, mas com o advento de novas tecnologias, uma grande base de dados e os modelos generativos de textos, sons, imagens e vídeos, o assunto está sendo estudado em outras áreas, como as ciências sociais.

Formado na Universidade Federal do Piauí (UFPI), o professor Orlando Berti volta à instituição 20 anos depois fazendo história: ele afirma que ministrou a primeira disciplina de Inteligência Artificial em um mestrado em comunicação do país, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM).

Primeira turma da disciplina de Inteligência Artificial em um mestrado em comunicação do Brasil (Foto: Orlando Berti)

O professor também é responsável pela criação do Laboratório de Inteligência Artificial e Jornalismo, onde são investigados os impactos do uso da ferramenta no fazer jornalístico, com interface na pesquisa científica em comunicação.

O pesquisador acredita que a tecnologia muitas vezes passa despercebida pelo olhar leigo, sendo associada apenas a novidades digitais e virtuais. Para ilustrar, ele recorre ao exemplo do filtro de barro, tecnologia criada no sertão para conservar e filtrar água, e defende o uso cuidadoso da IA para que não percamos a natureza de ser humano. A máquina existe para nos ajudar e não para moldar nossa essência.

Orlando conta que, inicialmente, o estudo em tecnologia e IA era voltado apenas para áreas técnicas específicas, como ciência da computação e análise de sistemas, mas que, com o avanço e o uso diário dessas tecnologias no dia a dia, áreas como as ciências sociais já estão começando a investigar o fenômeno sob a ótica do social.

“As tecnologias para muita gente é apenas algo relacionado ao digital, ao virtual e às novidades, mas tecnologia é tudo aquilo que transforma a vida do ser humano em algo mais positivo”, afirma.

O jornalista, durante sua trajetória, estudava tecnologias que não ganham tanto destaque e percebeu a lacuna existente na sua área em relação a pesquisas voltadas a entender os avanços tecnológicos. No jornalismo, o professor conta que descobriu, por meio de uma aluna, a IA generativa e, desde então, vem pesquisando a IA relacionada à comunicação, com enfoque na subárea do jornalismo.

O doutor destaca que no Piauí há uma possibilidade gigantesca para ampliar os estudos na área, com todas as universidades públicas à disposição da população, e ressalta o papel da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI), que tem desenvolvido, acolhido e incentivado pesquisas relacionadas à IA.

“A gente sabe que faz parte das linhas de incentivo em pesquisas tentar compreender as perspectivas da Inteligência Artificial e isso torna o Piauí um estado emblemático no sentido do avanço das IA, como também na reflexão das IA para ampliação das inteligências naturais e humanas”, conta.

Anny Santos, na época estudante de jornalismo e bolsista de um Programa de Iniciação Científica e Tecnológica da UESPI, tinha Orlando como professor. Agora mestranda, tem o professor como orientador. Na graduação, Berti foi seu orientador também. Ela, que tem o sonho de ser professora um dia, está trilhando seu caminho no campo da Inteligência Artificial e, apesar de ter tido contato com as ferramentas no trabalho, foi na pesquisa que ficou mais curiosa sobre o assunto.

Anny Santos em sala de aula no PPGCOM da UFPI (Foto: Arquivo Pessoal)

A jornalista e mestranda acredita que os incentivos que recebe, tanto do orientador de longa data quanto da FAPEPI desde a graduação, são o que lhe permitem dar continuidade às pesquisas. Em relação ao uso profissional, ela aponta que as ferramentas já estão dentro das redações jornalísticas, mas sem debate ético e sem clareza. Para ela, é necessário deixar de ser consumidor passivo da tecnologia e passar a atuar como produtor de conhecimento crítico a partir do próprio contexto.

“A FAPEPI impede a ciência piauiense de sufocar, dá tempo, dignidade e condições para que pesquisadores como eu possam aprofundar um percurso teórico sem ser consumidas pela urgência financeira. Sem pesquisa regional financiada, o Nordeste vira apenas objeto de estudo de outros, nunca sujeito que produz conhecimento sobre si mesmo”, afirma.

A jornada cruzada de ambos mostra o poder que o incentivo à pesquisa pode ter na vida de estudiosos que buscam entender melhor esse fenômeno para, de alguma forma, assim como o filtro de barro, ser de grande utilidade para a região, armazenando e conservando conhecimento em uma área com tanto potencial como a Inteligência Artificial.

Para aprendizes na área, o bacharelado em IA ofertado pela Faculdade PIT abre portas antes inimagináveis. Adler José, de 20 anos, e Luís Carlos, de 19, fazem parte da segunda turma do curso e já conseguiram oportunidades na área, com palestras e apresentações sobre o tema em unidades de ensino. 

Adler trabalha no desenvolvimento de softwares e chegou a palestrar em uma faculdade sobre o uso de ferramentas de IA no cotidiano, seja no trabalho ou nos estudos. Ele entrou no curso para se profissionalizar, buscando o mercado de trabalho. As ofertas e oportunidades não são apenas para a área da pesquisa, mas também voltadas para o mercado de trabalho. 

“O que eu aprendo no PIT já está totalmente alinhado com o meu lado profissional. Atuo na área da tecnologia, no ramo de Desenvolvimento de Software, e o aprendizado contínuo conquistado através da instituição impulsiona bastante o meu dia a dia como desenvolvedor, pois o conteúdo repassado também é focado no âmbito profissional”, conta o jovem.

Adler José em sala de aula na Faculdade PIT (Foto: Arquivo Pessoal)

O percurso de Luís Carlos, natural de Parnarama, no Maranhão, segue outro caminho. Ele enxerga o Piauí como uma espécie de polo tecnológico em ascensão, a partir dos investimentos feitos na área. Aos 18 anos, assim que ingressou na PIT, conseguiu uma vaga de professor de robótica e programação e veio morar no estado. O que inicialmente parecia um desafio, conciliar emprego e estudos, logo se revelou uma combinação natural.

“Isso pareceu surreal para mim. Consigo conciliar bem as duas responsabilidades. Às vezes o que estudo à noite repasso para meus alunos durante o dia”, afirma.

Protótipo de um Semáforo Inteligente criado por alunos de disciplina ministrada por Luís Carlos (Foto: Arquivo Pessoal)

Luís Carlos atribui parte dessa trajetória aos incentivos que recebeu ainda no ensino médio, quando participou de uma eletiva de robótica durante os três anos do curso. Os projetos e competições de que fez parte contribuíram para moldar suas motivações. 

“Tive um professor de robótica chamado Aelyo da Silva, ele tinha uma abordagem diferente, me dava autonomia para desenvolver protótipos e usar a criatividade. Uso sua metodologia nas minhas aulas atualmente”, conta.

A vontade de aprender criticamente sobre essa tecnologia abre um leque de possibilidades nas principais etapas de desenvolvimento intelectual de jovens e adultos. Da escola à graduação, da pós-graduação ao doutorado, a ciência faz sua parte na formação de pesquisadores.

O sociólogo Glauco Arbix já antecipava esse cenário ao defender que o investimento científico nos estudos dessa ferramenta tende a criar uma nova geração de pesquisadores, capazes “de refletir sobre problemas locais, nacionais e globais”. Com a chegada de novos pesquisadores às universidades, o conhecimento sobre o tema se expande e se renova. ita ser o futuro na pesquisa em tecnologias e os personagens desta matéria demonstram isso.

E o futuro? 

Apesar dos avanços e das oportunidades criadas, a jornada nacional em busca da soberania em dados e Inteligência Artificial ainda é recente. As sementes plantadas já começam a dar frutos nas salas de aula e nos sonhos de muitos piauienses que se dedicam ao estudo do assunto. O terreno muitas vezes representado como infértil do Piauí mostra que está sendo bem cuidado, mas ainda é necessário muito mais.

Para Orlando Berti, há três formas de lidar com a revolução tecnológica proporcionada pela IA. Na paixão, o pesquisador idealiza a inovação tecnológica como salvadora do mundo, superestimando o poder da ferramenta. Na negação, estão aqueles que demonizam a IA na pesquisa, recusando-se a compreendê-la. E no meio-termo, onde Berti se posiciona, é necessário cautela: analisar, estudar e questionar o uso e as consequências da Inteligência Artificial na pesquisa e na sociedade.

“Nessa terceira linha de desafios a gente tem percalços como toda área. Tudo que é novo desperta uma paixão momentânea e um preconceito no sentido de mostrar os lados positivos e criticando os lados não tão positivos”, diz o pesquisador. 

Os modelos generativos de IA não conseguem absorver completamente as nuances que apenas as ciências humanas são capazes de compreender. O raciocínio humano é diferente: carrega bagagens e individualidades únicas. As decisões não são tomadas só pela lógica, mas também pela emoção e pelo sentimento. A Inteligência Artificial não afeta só o desenvolvimento de certas atividades, ela altera o modo de se entender e compreender o mundo. 

Foto: Reprodução

Mapear os pontos positivos e negativos cabe aos pesquisadores, na difícil e necessária atividade de investigar a fundo algo que ainda não tem todas as respostas. Toda contribuição é válida. As pesquisas em tecnologia merecem ser vistas com zelo, cuidado, investimento e confiança no trabalho de quem se dedica a produzi-las.

Em 2024 os vencedores do Nobel em Física usaram o sistema neural humano como inspiração para a criação de redes neurais artificiais, que aprendem e armazenam padrões, conceito citado ainda por Alan Turing, de máquina pensante. No Nobel de Química, pesquisadores também venceram a premiação com a criação de uma IA que previa proteínas humanas, mostrando o poder e onde os estudos sobre o assunto podem chegar. 

A Faculdade PIT, que vai se expandir e alcançar cidades de norte ao sul do estado, e os cursos abertos em universidades federais oferecem uma oportunidade para os piauienses de compreender melhor essa tecnologia. 

O Piauí ganhou destaque internacional em 2022 ao ser citado pelo jornal New York Times, veículo de alcance global, que incluiu a Serra da Capivara na lista dos 52 lugares para se visitar no mundo. O mesmo estado que guarda os registros dos primeiros habitantes da América, com suas ferramentas e saberes ancestrais, agora constrói outro tipo de legado: o de uma terra que aprendeu a transformar o conhecimento em ferramenta, do barro ao algoritmo, da pedra lascada à Inteligência Artificial.

Pintura rupestre (Foto: Reprodução/ TV Clube)

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